A sopa e os seus encantos – uma primorosa alegoria, por Dulce Delgado!

Desde a minha infância, no interior, até hoje, são poucos os dias na semana que não faço uso de alguma sopa como principal alimento à noite. É um hábito familiar que vem de gerações anteriores e que, na minha cabeça, une o útil ao agradável, seja pela possibilidade de variações de sabores, no geral agradáveis, seja pelo inquestionável valor nutritivo do alimento. No meu caso, para dar ainda mais aceitação a esse caldo, ou creme, que chamamos de sopa, reside a constatação de que os familiares que cultivam esse hábito apresentam, na sua grande maioria, boa condição de saúde e vida longa.

Para nós, o sucesso da sopa é tão evidente que, mesmo em se tratando de um alimento que é servido em temperatura de morna a quente, consegue ter o seu consumo mantido em região de clima tropical e nos dias mais quentes do ano. Da minha vivência, asseguro ser essa a realidade predominante nas diversas cidades baianas em que residi ou, também, naquelas outras em que mantenho interação com parentes e amigos. Para muitos essa constatação pode parecer incompreensível, creio. Mas aí está realçado, no mundo real, o vigor dos hábitos culturais, cujas manifestações também se expressam pelos costumes alimentares!

Todo esse preâmbulo é para trazer um primor de alegoria (reflexões, divagações…) a respeito desse tradicional tipo de alimento, no texto “a sopa”, de autoria da portuguesa Dulce Delgado, publicado ontem em seu blog discretamente. Aprecio as postagens trazidas nesse blog já faz bom tempo, por focalizar, com grande frequência, pequenos detalhes da natureza e do cotidiano, com notável sensibilidade!

Finalmente, sobre as “beldroegas”, referidas no texto, cabe esclarecer que se trata de planta herbácea (Portulaca oleracea) da família das portulacáceas, de talos grossos e suculentos, folhas carnosas e arredondadas e flores amarelas, usada na alimentação e rica em ácido salicílico, entre outras ditas propriedades. É uma planta rasteira, também considerada erva daninha, de acordo com informações disponíveis na internet.

Vale a leitura – veja transcrição a seguir:

“a sopa

Sob o meu olhar descansava uma consistente e bem quente sopa com vários legumes; e em mim habitava o tempo e a disponibilidade para deixar o pensamento divagar ao ritmo lento do seu arrefecimento…e do vapor que teimava em embaciar-me os óculos!

Naturalmente fui levada pelos meandros da palavra sopa, seja pelas histórias lidas e vividas, memórias guardadas ou pelo imaginário que sempre nos habita…

……o primeiro pensamento levou-me a um tempo inimaginável para a mente humana e à teoria da Sopa primordial, aquela eventual mistura de compostos orgânicos que poderá ter estado na origem da vida que habita este nosso planeta. Enfim, um assunto demasiado complexo… que logo foi levado pelo vapor…

……lembrei as sopas/refeições altruístas que tantas instituições distribuem diariamente pelos mais desfavorecidos, um pouco à semelhança das antigas Sopas do Sidónio ou dos pobres, uma doação estabelecida em Portugal durante a 1ª Guerra Mundial pelo interino e controverso presidente Sidónio Pais;

……mergulhei nas Sopas de letras, seja naquele passatempo que é um verdadeiro jogo de escondidas entre o olhar e um mar de letras na busca de determinadas palavras… seja naquela Sopa de letrinhas da minha infância, em que pacientemente se tentava escrever na borda do prato algumas palavras com esse tipo de massa;

……continuei pela minha infância/juventude e lembrei as sopas da minha mãe, sempre deliciosas, especialmente a Sopa de belgroegas que eu tanto gostava ou, no calor do Verão, a sua Sopa Fria, semelhante ao gaspacho, mas não triturada;

……imaginei estar a passear/almoçar na zona de Almeirim, no Ribatejo, e numa colherada mágica apanhar a pedra que a tradicional, robusta e excelente Sopa de Pedra dessa região costuma incluir;

……viajei aos dias em que ainda faço uma Sopa alentejana, encimada pelo ovo escalfado e cheirando deliciosamente a coentros. E depois, por oposição…

……um pensamento menos prosaico trouxe-me à modernidade e às pouco saudáveis sopas instantâneas que habitam as prateleiras dos supermercados… e que há muito não entram em minha casa!

Porém, já prestes a acabar de a comer…ainda surgiu o pensamento de que uma sopa também pode ser doce e ter poesia…

……é o caso da Sopa dourada, um doce conventual confecionado com imensos ovos e ainda mais açúcar que está presente em muitas mesas de Natal do meu país…

…..ou da poética e tão portuguesa Sopa do mar, uma abrangente e deliciosa sopa com gosto a ondas e cheiro a maresia!

Entretanto…terminei-a. E estava excelente!

Fonte: https://discretamente.wordpress.com/2021/02/14/a-sopa/

Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir ao próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (levar música ao vivo para casas de idosos é uma das frentes de atuação, iniciada em 2007), além de assegurar espaços na agenda para o exercício do autoconhecimento e para a meditação, no caminho da evolução pessoal permanente . Gosto de ler, de aprender coisas novas, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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4 respostas para A sopa e os seus encantos – uma primorosa alegoria, por Dulce Delgado!

  1. dulcedelgado disse:

    Mais uma vez, muito obrigada

  2. Marcello de Souza Lopes disse:

    Que texto bacana! Estava me lembrando da Sopa de Pedra, que me conquistou quando estive em Portugal! Porreta!

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