Com a realidade do “home office”, o que será dos escritórios tradicionais?

Com a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus, trabalhar em casa (a partir de casa, no regime do chamado “home office”) passou a ser indispensável para grande parte da população. Em alguma intensidade e frequência, a depender do estágio de vida e das atividades com as quais a pessoa está envolvida, de certa forma quase todos nós estamos desenvolvendo algum trabalho em nossas residências e fazendo as necessárias  interações, a distância, o que compreende, em termos práticos, dispor de algum cantinho da casa (espaço físico), o uso de dispositivo eletrônico, de conexão com a internet, além de manter alguma disciplina para que o trabalho e a produtividade sejam reais, entre outros aspectos.

O tema home office já mereceu algumas postagens aqui no blog, até porque era percebido, claramente, o avanço do exercício de atividades remotas de uns anos para cá, que vinham paulatinamente sendo incorporadas por profissionais dos mais variados setores da economia, incluindo até mesmo a atuação em serviços públicos. Falando mais objetivamente, esse já era um caminho sem volta, pela conjugação de algumas demandas contemporâneas, a exemplo de dificuldade de locomoção nas grandes cidades, de busca de maior economicidade nas estruturas de trabalho, de desejo de contribuir com o meio ambiente (menos uso de veículos, por exemplo, reduzindo a emissão de substâncias poluidoras) e, ainda, de se encontrar maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal/familiar (bem-estar).

Presente essa realidade, que ganhou fôlego substancial – e meio na marra – com a pandemia, pela necessidade de isolamento social, cabe questionar: i) o que será dos escritórios convencionais? ii) os trabalhadores preferem trabalhar de casa, total ou parcialmente? iii) como prevalecerá a forma de trabalho no denominado “novo normal”?

E é claro que esse novo arranjo, de como as pessoas vão trabalhar no dia a dia, acabará afetando a todos, em cascata, do núcleo familiar do trabalhador às empresas e à grande gama de fornecedores de serviços, além da própria infraestrutura pública local.

Para melhor reflexão a esse respeito, trago hoje o bem interessante e oportuno artigo “O fim da era dos escritórios?”, que vi publicado estes dias no site da Deutsche Welle (em português).

Vale a leitura, a seguir:

“O fim da era dos escritórios?

Há gente que já fala no fim do escritório, outros veem exagero na previsão. Mas o home office definitivamente ganhou fôlego na pandemia do novo coronavírus, e algumas mudanças podem ser duradouras.

Homeoffice - Arbeitsplatz in der Coronakrise (Imago/R. Rayne)

“A centralidade do escritório acabou”, tuitou recentemente o fundador e presidente do Shopify, Tobi Lütke.

Já o chefe da Google, Sundar Pichai, planeja reembolsar em até 1.000 dólares os funcionários que compraram equipamento e móveis de escritório para trabalhar de casa durante a pandemia do novo coronavírus.

Analistas afirmam que o mundo do trabalho pode estar diante de uma grande mudança. “Depois da previsão sobre a ‘morte da distância’, em 1997, grandes cidades prosperaram como nunca antes”, diz o professor de geografia econômica Paul Cheshire, da London School of Economics. Agora elas terão que se ajustar para sobreviver, acrescenta.

Em 2018, uma pesquisa do Censo dos EUA revelou que apenas 5,3% dos americanos trabalhavam integralmente em home office.

O analista Rich McBee, presidente da empresa Riverbed, especializada em trabalho remoto, calcula que entre 15% e 20% das pessoas que trabalhavam no escritório não vão retornar depois da pandemia.

A empresa de consultoria Global Workplace Analytics estima que empregadores poderão economizar em média 11 mil dólares anuais para cada pessoa que fizer meio período de home office, principalmente por meio de aumento de produtividade, menores custos de instalações físicas, menor absentismo e rotatividade no emprego e melhor preparo para situações de emergência.

“Vamos certamente observar empresas que historicamente resistem ao home office em alguns casos reduzindo custos”, comenta Mat Oakley, da agência imobiliária Savills.

Quem trabalha de home office também pode estar disposto a receber menos. A empresa de serviços de conexão Log MeIn ouviu 2.200 trabalhadores em abril, nos Estados Unidos, e descobriu que 62% deles aceitariam um corte no salário para trabalhar de casa.

Cidades mais vazias

Um aspecto central na mudança é que as cidades podem esvaziar, prédios comerciais poderão ficar abandonados e novos prédios comerciais poderão nem ser construídos. Por outro lado, a velocidade e a segurança da internet terão que aumentar.

Estudos que avaliam o impacto ambiental da mudança ainda não são conclusivos, por exemplo sobre se o maior uso de eletricidade e internet em casa seria compensado pela diminuição do uso no escritório.

O home office também cria questões de espaço em casa e o problema da sobreposição de trabalhos profissional e doméstico. “Eles são divididos de forma desigual, e as mulheres acabam sobrecarregadas. O aumento da violência doméstica durante a pandemia é um alerta bem concreto”, diz o sociólogo Les Back, do Goldsmiths College, de Londres.

Outro aspecto é que a mudança certamente não virá para todos. Operários, enfermeiros, motoristas de ônibus e vários outros profissionais jamais terão a opção de fazer home office.

“A situação nas cidades já mudou. São os trabalhadores mal remunerados, frequentemente negros, que mais andam de transporte público e correm risco de contágio na pandemia, enquanto a classe média branca cuidadosamente evita ir à cidade. Penso que as cidades vão se tornar ainda mais divididas”, diz Back.

O transporte público, vital para o funcionamento das grandes cidades, enfrentará um grande desafio na fase pós-epidemia, principalmente no curto prazo. “Há uma necessidade de subsídios públicos ainda maiores”, observa Cheshire. Para ele, viagens de trabalho, aeroportos, centros de convenções hotéis enfrentarão dificuldades também no longo prazo.

Muitos preferem o local de trabalho

“Penso que estamos num ponto de virada. Há uma reorientação, uma recalibragem da relação espaço-tempo-vida social”, diz Back.”Poderemos ver profundas mudanças e algumas coisas poderão jamais ser como eram antes”, acrescenta.

“Se de fato adotarmos uma abordagem de home office, há implicações claras para as telecomunicações e a internet de banda larga, e mais ainda se conurbações avançarem sobre áreas rurais”, comenta a economista Rebecca Larkin.

Mas outros analistas afirmam que a ascensão do home office não vai acabar com os escritórios. “A história, e também a nossa pesquisa mais recente, mostram que o escritório não vai desaparecer tão cedo”, comenta o diretor de soluções corporativas da agência imobiliária JLL Neil Murray.

“O escritório vai manter sua importância como facilitador de inovação e colaboração e também de saúde, bem-estar e produtividade dos funcionários”, afirma.

Uma pesquisa da JLL diz que 58% dos trabalhadores sentem falta de seus escritórios, e esse sentimento é ainda maior entre os mais jovens.

Outra pesquisa, da empresa de arquitetura e design Gensler, afirma que apenas 12% dos trabalhadores querem trabalhar de casa em tempo integral, e 70% diz que gostaria de passar a maior parte do tempo no escritório.

“Há ampla evidência de que a concentração espacial de escritórios eleva a produtividade, considerando todos os demais aspectos. Isso vale não só na horizontal, mas também na vertical. Trabalhadores em prédios altos são mais produtivos”, afirma Cheshire.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/o-fim-da-era-dos-escrit%C3%B3rios/a-54036799?utm_medium=10todaybr.20200705&utm_source=email&utm_content=article&utm_campaign=10today

Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir ao próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (levar música ao vivo para casas de idosos é uma das frentes de atuação, iniciada em 2007), além de assegurar espaços na agenda para o exercício do autoconhecimento e para a meditação, no caminho da evolução pessoal permanente . Gosto de ler, de aprender coisas novas, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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6 respostas para Com a realidade do “home office”, o que será dos escritórios tradicionais?

  1. Jose Paes Landim disse:

    Boa leitura, oferecida por tão proveitoso, quão oportuno texto. Não tem sido em vão o isolamento imposto pelas recomendações do mundo científico, assim como o recolhimento aos nossos lares, a contemplar-nos com a oportunidade de aprofundar nossas reflexões na busca de um mundo melhor Interrompi, agora mesmo, a preparação de uma nossa nova crónica nessa direção, já que vejo como muito claro o recado do coronavirus à consciência humana de que o.mundo não poderá como está, com esse tranquilo embarque na inversão dos valores. Forte abraco e Parabéns pela sua jornada cultural.

  2. dulcedelgado disse:

    Tenho familiares próximos que ficaram em home office porque as empresas fecharam simplesmente os espaços físicos.
    Tem aspectos bons e maus. Um dos piores é os dias serem todos “iguais” e os fins de semana perderem a importância que tinham como tempo de descanso. É preciso estar alerta porque em certas áreas, nomeadamente as criativas, pode haver um abuso da entidade patronal.
    Julgo que é um modo de trabalho que deve ser incrementado, mas também muito bem pensado e ter regras legisladas, de modo a ser benéfico para ambas as partes.
    Para já, creio que o ideal seria metade do tempo a trabalhar em casa e metade no atelier/escritório.

    • JCDattoli disse:

      Legal, Dulce. Essa estratégia de maneira de trabalhar em casa está ainda no começo e, sem dúvida, muito virá daqui pra frente em termos de adequação, regulação etc. De certo, na minha percepção, é que o trabalho remoto seguirá como opção cada vez mais forte!
      Abraço

  3. Ótimo artigo. Estamos testemunhando um período de grandes transformações no trabalho, educação, relacionamentos… e além! Os novos problemas forçam o surgimento de novas soluções, e isso funciona em nível pessoal, corporativo, social e até global. Tenho amigos que estão penando pra aprender a lidar com as ferramentas de trabalho online, mas logo isso passará, e, ao que tudo indica, as atividades online serão mesmo o “novo normal”.

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