‘O que o Japão tem a nos ensinar sobre limpeza’ (confira)!!!

Repercuto hoje primorosa matéria da BBC Travel, traduzida e publicada no portal eletrônico da BBC News Brasil, pelo conteúdo rico e oportuno dado a essa educativa e cultural publicação. No particular, enfatiza, a exemplo de algumas outras publicações que já trouxe  por aqui, os hábitos japoneses voltados para a organização, a limpeza, a higiene e a prevenção de doenças em geral, resultantes de boas (e seculares) práticas de asseio e zelo individuais e coletivas, que denotam o natural e admirável senso de cidadania que tanto chama a atenção – e encanta – as pessoas que visitam o Japão.

Por essas e outras, observa-se facilmente que os japoneses são fieis seguidores, pela prática efetiva, da máxima “O mais importante não é o ato de limpar, mas o ato de não sujar”, um dos princípios da filosofia conhecida como “5S”, que é exatamente o senso de limpeza ou “seisou”. 

Tomar conhecimento desse tipo de relato, publicado em importante veículo de comunicação, sinceramente me alegra e renova minhas esperanças por um mundo melhor, que começa com hábitos simples do cotidiano. Portanto, torço para que atitudes de cidadania como essas contagiem  e sejam espelhadas por cidadãos e sociedades mundo afora, cada vez mais.

Como síntese da mensagem, diria que o exemplo do comportamento individual, na prática do dia a dia, é o começo de tudo. Não custa lembrar, mais do que pensar e desejar, o que vale mesmo é a atitude demonstrada pela prática real, são os comportamentos de cada um adotados do cotidiano!

Leia a seguir:

O que o Japão tem a nos ensinar sobre limpeza

Homem limpa templo no JapãoDireito de imagemALAMY

No zen budismo, tarefas diárias como limpeza e culinária são consideradas exercícios espirituais

Sentados nas carteiras, os alunos estão ansiosos para ir para casa depois de um longo dia de sete aulas de 50 minutos, mas ouvem pacientemente enquanto o professor faz alguns anúncios sobre o dia seguinte.

Então, como sempre, ele encerra da seguinte forma: “Ok, pessoal, lista das tarefas de limpeza de hoje. As fileiras um e dois limparão a sala de aula. Três e quatro, corredor e escada. Cinco, banheiros.”

Alguns sinais de insatisfação podem ser notados na fileira cinco, mas as crianças se levantam, pegam os esfregões, panos e baldes no armário e partem para os banheiros. Cenas assim estão acontecendo ao mesmo tempo em escolas de todo o Japão.

A maioria das pessoas que visitam o país pela primeira vez ficam impressionadas com a limpeza das ruas. Então, percebem a ausência de lixeiras e de varredores e se perguntam: como é possível tudo estar tão limpo?

Pessoas caminham pela rua em cidade japonesaDireito de imagemALAMYA maioria das pessoas que visitam o Japão pela primeira vez fica impressionada com a limpeza

A resposta mais simples é que os próprios habitantes cuidam disso. “Durante os 12 anos de vida escolar, do ensino fundamental ao ensino médio, a limpeza faz parte da programação diária dos alunos”, diz Maiko Awane, diretora-assistente do escritório em Tóquio da Província de Hiroshima. “Em nossa vida doméstica, os pais nos ensinam que é ruim não mantermos nossas coisas e espaços limpos.”

A inclusão desse elemento no currículo escolar ajuda as crianças a desenvolverem uma consciência e um orgulho sobre os ambientes que frequentam. Que alunos vão sujar ou depredar uma escola que têm de limpar?

“Às vezes, não queria limpar a escola”, lembra a tradutora Chika Hayashi, “mas fazer isso era parte da rotina. Acho que ter de limpar a escola é uma coisa boa, porque aprendemos que é importante assumir a responsabilidade de cuidar das coisas e dos lugares que usamos.”

Ao chegar à escola, os alunos deixam seus sapatos em armários e trocam de roupa. Também em casa, as pessoas deixam seus calçados na entrada. Até os prestadores de serviço que vão a uma residência fazem isso.

E, à medida que as crianças crescem, o conceito do que constitui seu espaço se estende para além da sala de aula e passa a incluir a vizinhança, a cidade e o país.

Cuidado com a higiene está presente na vida cotidiana

Alunos japoneses recolhem lixo na ruaDireito de imagemALAMYNas escolas japonesas, a limpeza faz parte da rotina diária dos alunos

Alguns exemplos desta característica japonesa se tornaram virais, como o ritual de sete minutos de limpeza de trens-bala, que se tornou uma atração turística por si só.

Até os torcedores de futebol do Japão têm essa consciência. Nas Copas do Mundo de 2014 e 2018, surpreenderam o mundo ao recolher o lixo no estádio ao fim das partidas. Os jogadores também deixaram o vestiário em perfeitas condições. “Que exemplo para todas as equipes!”, tuitou a coordenadora-geral da Fifa, Priscilla Janssens.

Os japoneses são muito preocupados com sua reputação aos olhos dos outros, diz Awane. “Não queremos que os outros pensem que somos pessoas ruins ou sem educação.”

Cenas semelhantes acontecem em festivais de música. No Fuji Rock, o maior e mais antigo do Japão, os fãs mantêm o lixo com eles até encontrarem onde descartar. Os fumantes são instruídos a levar um cinzeiro portátil e a “evitar fumar onde isso possa afetar outras pessoas”, de acordo com o site do festival.

Também há exemplos dessa consciência na vida cotidiana. Por volta das 8h, funcionários de escritórios e lojas limpam as ruas ao redor de seu local de trabalho. As crianças se voluntariam para participar de uma faxina mensal, quando recolhem o lixo das ruas perto das escolas. Bairros também realizam eventos regulares de limpeza. Não que haja muito o que limpar, porque as pessoas levam seu lixo para casa.

Até as cédulas saem dos caixas eletrônicos tão limpas quanto uma camisa engomada. No entanto, o dinheiro fica sujo, e é por isso que nunca é colocado diretamente na mão de alguém. Nas lojas, hotéis e até em táxis, há uma pequena bandeja para isso. A outra pessoa pega então o dinheiro dali.

A sujeira invisível — germes e bactérias — são outra fonte de preocupação. Quando as pessoas pegam resfriados ou gripes, usam máscaras cirúrgicas para evitar infectar outras pessoas. Esse simples ato reduz a propagação de doenças e economiza uma fortuna em dias de trabalho perdidos e despesas médicas.

A origem da preocupação com a limpeza

Pessoas saindo de templo no JapãoDireito de imagemANGELES MARIN CABELLODesde muito jovens, japoneses desenvolvem consciência e orgulho dos ambientes que frequentam

Mas como os japoneses se tornaram tão preocupados com isso? Certamente, não é uma novidade, como mostra a biografia do marinheiro Will Adams, escrita por Giles Minton.

Em 1600, Adams tornou-se o primeiro inglês a pisar no Japão e encontrou uma “nobreza extremamente asseada” e um sistema de saneamento “imaculado” em um momento em que as ruas da Inglaterra “frequentemente transbordavam de excrementos”. Os japoneses “ficaram horrorizados” com a falta de cuidado dos europeus com a higiene pessoal.

Em parte, isso se deve a preocupações práticas. Em um ambiente quente e úmido como o do Japão, a comida estraga rapidamente. Bactérias se proliferam. Os insetos abundam. Portanto, ter uma boa higiene significa ter uma boa saúde.

Templo no JapãoDireito de imagemANGELES MARIN CABELLOA limpeza é uma parte central do budismo

A limpeza também é uma parte central do budismo, que chegou da China e da Coréia entre os séculos 6 e 8. E, na versão zen do budismo, que veio da China nos séculos 12 e 13, tarefas diárias de limpeza e culinária são consideradas exercícios espirituais, tal qual meditar.

“Todas as atividades da vida diária, incluindo refeições e limpeza dos espaços, devem ser vistas como uma oportunidade de praticar o budismo. Lavar a sujeira física e espiritual tem um papel importante nisso”, diz Eriko Kuwagaki, do Templo Shinshoji, em Fukuyama.

Em O Livro do Chá (Editora Pensamento, 2009), de Kakuzo Okakura, sobre a cerimônia do chá e a filosofia zen que a permeia, o autor escreve que, na sala onde o ritual é realizado, “tudo está absolutamente limpo”. “Nenhuma partícula de poeira será encontrada no canto mais escuro, porque, se houver alguma, o anfitrião não é um mestre do chá.”

Okakura escreveu essas palavras em 1906, mas elas são válidas ainda hoje. Antes de uma cerimônia de chá na casa Seifukan, em Hiroshima, a assistente do mestre passa um rolo de fita adesiva no chão para retirar toda a poeira.

Então, por que todas as nações budistas não são tão zelosas com a limpeza quanto o Japão?

Bem, muito antes da chegada do budismo, o Japão já tinha sua própria religião: o xintoísmo, que significa “o caminho dos deuses” e tem a limpeza como elemento básico. Portanto, a ênfase do budismo neste aspecto apenas reforçou algo que os japoneses já praticavam.

Um conceito-chave no xintoísmo é o kegare (impureza ou sujeira), o oposto da pureza. Exemplos de kegare variam de morte e doença a praticamente qualquer coisa desagradável. Rituais de purificação frequentes são necessários para afastar o kegare.

“Se um indivíduo é atingido por kegare, pode prejudicar a sociedade como um todo”, explica Noriaki Ikeda, sacerdote xintoísta no santuário de Kanda, em Hiroshima. “Portanto, é vital praticar a limpeza. Isso purifica e ajuda a evitar trazer calamidades à sociedade. É por isso que o Japão é um país muito limpo.”

Local onde fiéis limpam-se em santuário no JapãoDireito de imagemANGELES MARIN CABELLOAntes de entrar em um santuário xintoísta, os fiéis enxaguam as mãos e a boca em uma bacia de pedra

Essa preocupação com os outros é compreensível no caso de, digamos, doenças infecciosas. Mas também funciona em níveis mais prosaicos, como coletar seu próprio lixo. Como Awane coloca: “Nós japoneses acreditamos que não devemos incomodar os outros ao sermos preguiçosos e negligenciarmos o lixo que criamos”.

Há muitos exemplos de rituais de purificação xintoístas na vida cotidiana. Antes de entrar em um santuário, os fiéis enxaguam as mãos e a boca com água em uma bacia de pedra.

Muitos japoneses levam seu carro novo para ser purificado pelo sacerdote, que agita uma varinha chamada onusa em volta do carro. Ele então abre as portas, capô e o porta-malas para purificar o interior.

O sacerdote também purifica pessoas, agitando a onusa de um lado para o outro sobre elas. Ele a usa até para purificar as terras onde um novo prédio será erguido.

Se você mora no Japão, logo se vê adotando um estilo de vida mais higiênico. Para de assoar o nariz em público, usa desinfetantes para as mãos fornecidos aos clientes em lojas e escritórios e aprende a separar o lixo doméstico em dez tipos diferentes para facilitar a reciclagem.

Sacerdote purifica carro no JapãoDireito de imagemANGELES MARIN CABELLOMuitos japoneses levam seu carro novo para um santuário para ser purificado

E, como Adams em 1600, descobre que sua qualidade de vida melhora. Então, quando volta para sua terra natal, fica chocado com os bárbaros que espirram e tossem na sua cara. Ou entram em sua casa com sapatos sujos. Coisas impensáveis no Japão.

Mas ainda há esperanças. Afinal, outras instituições culturais japonesas, como o sushi, os celulares com câmera e Pokémon, também levaram algum tempo até se popularizarem no resto do mundo.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Travel.

Publicado em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-49995444?utm_medium=10todaybr.20191022&utm_source=email&utm_content=article&utm_campaign=10today

Anúncios

Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir ao próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (levar música ao vivo para casas de idosos é uma das frentes de atuação, iniciada em 2007), além de assegurar espaços na agenda para o exercício do autoconhecimento e para a meditação, no caminho da evolução pessoal permanente . Gosto de ler, de aprender coisas novas, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
Esse post foi publicado em Ações sociais e humanitárias, Educação, Motivação e crescimento humano, O ser humano no contexto das organizações, Saúde, Viagens. Bookmark o link permanente.

6 respostas para ‘O que o Japão tem a nos ensinar sobre limpeza’ (confira)!!!

  1. Davi Dattoli disse:

    O Japão é um país maravilhoso! A sua disciplina e organização como um todo, deveria ser seguido por todos os outros países ….

    • JCDattoli disse:

      Pois é, Davi. Espero que do lado Ocidental, e particularmente no Brasil, consigamos incorporar em nosso estilo de viver comportamentos como esses, mesmo que avanços/mudanças atitudinais venham a acontecer aos poucos, posto que as mudanças de cultura necessitam de tempo. O importante, de momento, é darmos divulgação e cada um adotar hábitos de boa cidadania para que sirvam de exemplo.
      Obrigado por comentar!

  2. Luci disse:

    Fantástico!!! 👏👏👏

  3. dulcedelgado disse:

    Temos todos tanto que aprender com este tipo de pensar e estar. Muito bom!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s