“De repente 60 (ou 2 X 30) – Uma belíssima e premiada crônica!!!

Imagem relacionadaImagem: askelterveyteen.com

Como se conscientizar e se preparar para curtir a maturidade, o processo de envelhecimento, a aposentadoria etc., em contexto de longevidade que não para de crescer, é assunto dos mais frequentes por aqui.

Nessa linha, publiquei, em novembro de 2017, a crônica ‘DE REPENTE, SESSENTA’, de Silvana Dualibe, evocando a beleza do avançar no tempo, do chegar aos 60 anos de bem com a vida, que você pode recordar: https://obemviver.blog.br/2017/11/14/de-repente-sessenta-uma-cronica-primorosa/.

Para hoje, trago outra crônica primorosa, estruturada em narrativa bem-humorada, com o título ‘DE REPENTE 60 (ou 2X30)’, de Regina de Castro Pompeu, também falando sobre a graça de se chegar à longevidade galhardamente, de curtir a maturidade superando naturais desafios, aprendendo sempre…, cujo estado de espírito requer, primordialmente, que se tenha mentalidade positiva. Assim, tudo fica mais facilitado e, melhor, tudo vale a pena, pois, como tenho dito reiteradas vezes, a idade cronológica é um mero detalhe!

Essa crônica, que recebi de um amigo anteontem, foi publicada no site Recanto das Letras (entre outros), tendo obtido o terceiro lugar no Prêmio Longevidade Bradesco de Jornalismo, Histórias de Vida, em 2011.

Uma escrita inteligente, agradável e atemporal. Confira a seguir:

“DE REPENTE 60 (ou 2×30)

Regina de Castro Pompeu

Ao completar sessenta anos, lembrei do filme “De repente 30”, em que a adolescente, em seu aniversário, ansiosa por chegar logo à idade adulta, formula um desejo e se vê repentinamente com trinta anos, sem saber o que aconteceu nesse intervalo.
Meu sentimento é semelhante ao dela: perplexidade.
Pergunto a mim mesma: onde foram parar todos esses anos?
Ainda sou aquela menina assustada que entrou pela primeira vez na escola, aquela filha desesperada pela perda precoce da mãe; ainda sou aquela professorinha ingênua que enfrentou sua primeira turma, aquela virgem sonhadora que entrou na igreja, vestida de branco, para um casamento que durou tão pouco!Ainda sou aquela mãe aflita com a primeira febre do filho que hoje tem mais de trinta anos.
Acho que é por isso que engordei, para caber tanta gente, é preciso espaço!
Passei batido pela tal crise dos trinta, pois estava ocupada demais lutando pela sobrevivência.
Os quarenta foram festejados com um baile, enquanto eu ansiava pela aposentadoria na carreira do magistério, que aconteceu quatro anos depois.
Os cinquenta me encontraram construindo uma nova vida, numa nova cidade, num novo posto de trabalho.
Agora, aos sessenta, me pergunto onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho todas as manhãs.
Tive o privilégio de viver uma época de profundas e rápidas transformações em todas as áreas: de Elvis Presley e Sinatra a Michael Jackson, de Beatles e Rolling Stones a Madonna, de Chico e Caetano a Cazuza e Ana Carolina; dos anos de chumbo da ditadura militar às passeatas pelas diretas e empeachment do presidente a um novo país misto de decepções e esperanças; da invenção da pílula e liberação sexual ao bebê de proveta e o pesadelo da AIDS. Testemunhei a conquista dos cinco títulos mundiais do futebol brasileiro (e alguns vexames históricos).
Nasci no ano em que a televisão chegou ao Brasil, mas minha família só conseguiu comprar um aparelho usado dez anos depois e, por meio de suas transmissões,vi a chegada do homem à lua, a queda do muro de Berlim e algumas guerras modernas.
Passei por três reformas ortográficas e tive de aprender a nova linguagem do computador e da internet. Aprendi tanto que foi por meio desta que conheci, aos cinquenta e dois anos, meu companheiro, com quem tenho, desde então, compartilhado as aventuras do viver.
Não me sinto diferente do que era há alguns anos, continuo tendo sonhos, projetos, faço minhas caminhadas matinais com meu cachorro Kaká, pratico ioga, me alimento e durmo bem (apesar das constantes visitas noturnas ao banheiro), gosto de cinema, música, leio muito, viajo para os lugares que um dia sonhei conhecer.
Por dois anos não exerci qualquer atividade profissional, mas voltei a orientar trabalhos acadêmicos e a ministrar algumas disciplinas em turmas de pós-graduação, o que me fez rejuvenescer em contato com os alunos, que têm se beneficiado de minha experiência e com quem tenho aprendido muito mais que ensinado.
Só agora comecei a precisar de óculos para perto (para longe eu uso há muitos anos) e não tinjo os cabelos, pois os brancos são tão poucos que nem se percebe (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho após os setenta anos).
Há marcas do tempo, claro, e não somente rugas e os quilos a mais, mas também cicatrizes, testemunhas de algumas aprendizagens: a do apêndice me traz recordações do aniversário de nove anos passado no hospital; a da cesárea marca minha iniciação como mãe e a mais recente, do câncer de mama (felizmente curado), me lembra diariamente que a vida nos traz surpresas nem sempre agradáveis e que não tenho tempo a perder.
A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu, lembro de coisas que aconteceram há mais de cinquenta anos e esqueço as panelas no fogo.
Aliás, a memória (ou sua falta) merece um capítulo à parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar o nome de alguém e começa a brincadeira de esconde-esconde. Tento fórmulas mnemônicas, recito o alfabeto mentalmente e nada! De repente, quando a conversa já mudou de rumo ou o interlocutor já se foi, eis que surge o nome ou palavra, como que zombando de mim…
Mas, do que é que eu estava falando mesmo?
Ah, sim, dos meus sessenta.
Claro que existem vantagens: pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa, talvez porque não são considerados pessoas inteiras), atendimento prioritário em filas exclusivas, sentar sem culpa nos bancos reservados do metrô e a TPM passou a significar “Tranquilidade Pós-Menopausa”.
Certamente o saldo é positivo, com muitas dúvidas e apenas uma certeza: tenho mais passado que futuro e vivo o presente intensamente, em minha nova condição de mulher muito sex…agenária!

Fonte: https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3363329

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir ao próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (levar música ao vivo para casas de idosos é uma das frentes de atuação, iniciada em 2007), além de assegurar espaços na agenda para o exercício do autoconhecimento e para a meditação, no caminho da evolução pessoal permanente . Gosto de ler, de aprender coisas novas, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
Esse post foi publicado em Motivação e crescimento humano, Psicologia e comportamento, Saúde. Bookmark o link permanente.

4 respostas para “De repente 60 (ou 2 X 30) – Uma belíssima e premiada crônica!!!

  1. dulcedelgado disse:

    Muito bom!
    Como os meus 60 se encaixam em tantos aspectos destes 60…e, certamente, como em tantos outros 60 que há por aí!

  2. Massarra disse:

    Texto maravilhoso! Fica claro para mim que a principal conquista a ser buscada na maturidade é o autoconhecimento. O autoconhecimento nos tira a ilusão de que ainda somos jovens, e nos preserva do sofrimento de encarar a realidade da vida!

    • JCDattoli disse:

      Que legal, caríssimo Massarra. Grato por comentar (andava sumido)!
      O que você menciona é a verdadeira maturidade, que se adquire com o passar dos anos, com conhecimento, experiência, aprendizado constante e equilíbrio.
      O que não podemos perder de vista é que o espírito jovial é pedra de toque para o processo de envelhecimento. Viver apaixonadamente, não importa a idade já vivida, é essencial. Vale registrar que, segundo resultado de pesquisas mundo afora, no geral as pessoas mais idosas são mais felizes do que as pessoas mais jovens!
      Abração.

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