“A reação adversa à felicidade”

Reproduzo artigo de Alison Beard, da Harvard Business Review, que vi publicado no portal eletrônico Flipboard, trazendo questionamentos interessantes e necessários a respeito de Felicidade, de Pensamento Positivo…

Com efeito, tenho dito, nas publicações feitas sobre Felicidade, que esse tema é desafiador e inesgotável. Esta postagem de hoje reforça isso, certamente!

Na sua linha de raciocínio, a autora pondera e procura demonstrar que, ao invés de dizer-se feliz o tempo todo, de pensar sempre positivo etc., é bem mais razoável estarmos no espírito da busca pela felicidade. Para tanto, menciona um punhado de publicações recentes a respeito dessa abordagem mais “pé no chão”, mais racional.

O texto é instigante. Certamente suscitará boas reflexões. Confira:

“A reação adversa à felicidade

A reação adversa à felicidade

E, mesmo assim, para mim e para muitos outros, a felicidade ainda é inatingível. Claro que muitas vezes me sinto alegre e satisfeita — lendo histórias para meus filhos dormirem, entrevistando alguém que admiro muito, finalizando um artigo difícil. Mas apesar de ter uma boa saúde, apoio familiar, amigos e um trabalho instigante e flexível, frequentemente me sinto inundada por emoções negativas: preocupação, raiva, decepção, culpa, inveja, arrependimento. Meu estado de espírito padrão é o descontentamento.

A grande e crescente literatura sobre a felicidade promete me livrar desses sentimentos. Porém, o resultado é que acabo me sentindo ainda mais derrubada do que já estou. Eu sei que deveria ser feliz. Sei que tenho boas razões para isso e que estou melhor do que muita gente. Sei que pessoas mais felizes são mais bem-sucedidas. Sei que alguns poucos exercícios mentais poderiam ajudar. Mesmo assim, quando estou mal-humorada, é difícil sair desse estado. E, tenho que admitir, uma pequena parte de mim considera a falta de felicidade não como negatividade improdutiva, mas como realismo altamente produtivo. Não consigo imaginar alguém sendo feliz o tempo todo, tenho muitas suspeitas das pessoas que dizem se sentir assim.

Concordei em escrever este artigo porque, nos últimos anos, notei um apoio maior a esse ponto de vista. Barbara Ehrenreich lançou em 2009 o livro Bright-sided (Sorria), sobre a “divulgação sem fim” e os efeitos prejudiciais do pensamento positivo. Na mesma linha, foram lançados no ano passado Rethinking positive thinking(Repensando o pensamento positivo, em tradução livre), de Gabriele Oettingen, professora de psicologia da NYU e The upside of your dark side (A força boa do lado obscuro), de Todd Kashdan e Robert Biswas-Diener, dois especialistas em psicologia positiva. Neste ano, tivemos o fantástico artigo de Matthew Hutson publicado na revista Psychology Today com o título “Beyond happiness: the upside of feeling down” (Além da felicidade: as vantagens da tristeza), The upside of stress (O lado bom do stress), de Kelly McGonigal da Stanford, Beyond happiness (Além da felicidade, em tradução livre), do historiador e comentarista britânico Anthony Seldon, e The happiness industry: how the government and big business sold us well being (A Indústria da felicidade: como o governo e grandes corporações nos vendem bem-estar, em tradução livre), de William Davies, outro britânico, professor de política da Goldmiths.

Estamos, enfim, enxergando uma reação adversa à felicidade? Mais ou menos. Muitos desses recentes lançamentos se opõem à nossa obsessão moderna pelo sentir-se feliz e pensar positivamente. Oettingen explica a importância de reprimirmos nossos sonhos felizes com análises sóbrias dos obstáculos encontrados pelo caminho. O livro de Kashdan e Biswas-Diene e o artigo de Hutson detalham os benefícios que derivam de todas as emoções negativas que citei acima; esses sentimentos juntos nos encorajam a melhorar nossa realidade e nós mesmos. (Susan David, psicóloga de Harvard, coautora do artigo da HBR “Emotional Agility,” também escreveu ponderadamente sobre esse assunto.)

McGonigal nos mostra como enxergar a situação de infelicidade de uma forma mais gentil para assim transformar a situação em algo positivo e não em algo que deteriore nossa saúde. Aqueles que aceitam o stress como uma reação natural do corpo a um desafio são mais resilientes e vivem mais do que aqueles que tentam lutar contra o sentimento.

Seldon descreveu seu próprio crescimento, da simples procura pelo prazer à busca por atividades mais relevantes que lhe propiciam (como devem propiciar) prazer. Infelizmente, ele banaliza o conselho ao criar uma lista: aceitarmos como somos; pertencer a um grupo; ter bom caráter, disciplina, empatia, foco, generosidade e saúde; questionar; embarcar em uma jornada interna; aceitar o karma e aderir tanto à religião quanto à meditação (alguns se perguntam o que mais ele pode inventar).

Davies analisa a questão sob um ângulo diferente. Ele está cansado das tentativas organizacionais de explorar o que é simplesmente “um processo dentro de nosso cérebro”. Em sua opinião, existe algo sombrio na maneira como publicitários, gerentes de recursos humanos, governos e empresas farmacêuticas estão mensurando, manipulando e ganhando dinheiro em cima da nossa sede insaciável por sermos mais felizes.

Mas nenhum desses autores está questionando a ambição individual de ter uma vida feliz. Chamamos isso de busca pela “felicidade”, mas o que queremos dizer, na verdade, é “realização de longo prazo”. Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, chama isso de “florescimento”, e disse, anos atrás, que emoção positiva (ou seja, sentir-se feliz) é apenas um elemento da felicidade, junto com engajamento, relacionamentos, importância e realização. Arianna Huffington utiliza a terminologia “prosperar” em seu novo livro e Lenoir, cuja história da filosofia da felicidade é provavelmente a mais esclarecedora e divertida do grupo, descreve simplesmente como “amor pela vida”. Quem pode argumentar contra qualquer uma dessas definições?

O ponto em que a maioria dos gurus da felicidade erra é ao insistir que felicidade diária, se não constante, é o caminho para a satisfação de longo prazo. Para os otimistas que sempre enxergam o copo meio cheio, isso pode até ser verdade. Eles podem “trombar com a felicidade” como sugere Dan Gilbert, o pesquisador mais proeminente desse campo de estudo, ou ganhar a “vantagem da felicidade”, como recomenda Michelle Gielan, esposa e parceira de Achor na empresa GoodThink, em seu novo livro. Como eu disse, aparentemente precisamos de apenas alguns truques básicos.

Mas, para o resto de nós, essa felicidade parece forçada, e é muito improvável que nos ajude a cultivar relacionamentos mais significativos, ou desenvolver a carreira perfeita. Certamente não pode ser prolongada por nossos empregadores nem por outras forças externas. Buscamos realização de diferentes maneiras, dispensando a leitura de livros de autoajuda. E desconfio que no longo prazo estaremos todos bem, talvez até mais felizes.
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Alison Beard é editora-sênior da Harvard Business Review.

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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