Uma crônica especial para celebrar o Dia Mundial da Terra!

Resultado de imagem para dia mundial da terra 2018 Imagem: Calendarr

Entre tantas homenagens e datas marcantes instituídas por aí afora, a celebração deste 22 de abril é muito especial e mais do que merecida: Dia Mundial da Terra!

A homenagem foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson. Transformou-se na maior manifestação ambiental do planeta, promovida pelas Nações Unidas. É, portanto, dia para conscientização sobre a importância da nossa mãe-terra, como tentativa de ver despertado o senso de proteção para os recursos naturais, ante as sucessivas agressões promovidas pela ação do homem.

Como marca e homenagem da data, divulgo a excelente crônica MÃE-TERRA, da escritora, poetisa e ambientalista Sandra Fayad, trazendo, em forma de diálogo, uma singela homenagem ao planeta e, ao mesmo tempo, fazendo registro de atitudes pouco zelosas por parte dos seus habitantes.

A crônica, adotada como roteiro para teatro, foi publicada no seu livro ANIMAIS QUE PLANTAM GENTE e está postada no seu site Proseando em versos (www.sandrafayad.prosaeverso.net).

Confira o belo texto, a seguir:

MÃE-TERRA

Sandra Fayad

– Alô, Mãe-Terra!
– Como vai, filha? Que bom que me ligaste!
– Estás ocupada?
– Sim. Mas não te preocupes. Posso interromper um pouco.
– Liguei para contar que hoje acordei com vontade de escrever uns versinhos para a
senhora. Quer ver?
– Ah, quero sim.

“Mais quente que Marte
Menos fria que Vênus
És da vida o baluarte
És a pátria dos terrenos.”

– Que lindo! Muito obrigada, filha.
– Mereces muitas homenagens por tudo o que nos tem dado e por todos os sacrifícios,
que só uma mãe dedicada é capaz de fazer. A propósito, como anda a tua saúde?
– Ih, esse assunto é pra mais de légua…
– O que foi? Tens mania de esconder as dores embaixo do Manto Inferior. Mas agora
quero que me contes tudo.
– São dores por toda a natureza, desde o pólo norte até o pólo sul. Cada dia, fico mais
destemperada. Ora me derreto de calor, ora me encolho de frio, independentemente
das estações. Às vezes, sinto muita febre. Vem lá do meu Núcleo Interno em direção à
Crosta. Ardo em brasas vulcânicas. Dizem os Raizeiros da Amazônia que estou
entrando na menopausa. Ando intoxicada com a poluição também. Sinto muita falta de
ar. Reclamei sobre essa fumaceira tóxica, mas os donos das indústrias contestaram.
Dizem que é frescura minha e que precisam produzir novos materiais a baixo custo,
para fazer a economia dos países crescer, enriquecer, progredir. Já não consigo
amamentar a fauna, nem nutrir as raízes da flora. Elas não estão se adaptando aos
sabores ácidos nem do meu leite doce ou salgado. Muitas espécies importantes já foram
extintas e outras estão em fase de extinção. Para completar, agora apareceram umas
alergias, que rasgam minha camada superficial, criando fissuras por toda Crosta.
Chamam isto de erosão. Estou fragilizada e feia, filha.
– Isso é grave. Você já consultou os Especialistas da Medicina?
– Alguns estão realmente preocupados – são filhos amorosos como tu. Querem eliminar
as influências externas que estão me prejudicando por dentro, querem fazer campanhas
a favor da vida, mas esbarram em tanta burocracia, em tantos interesses econômicos,
que muito pouco conseguem fazer. Outros enfiam suas cabeças em laboratórios de
pesquisa, para buscarem fórmulas químicas mágicas. Querem modificar minha
corrente sanguínea, controlar meu temperamento. Acham que minha força precisa ser
domada, moldada aos desejos dos grandes interesses internacionais. Coitados! Pensam
que sabem tudo sobre mim e que vão controlar meus sopros e espirros sobre mares e
montes ou os fluxos e refluxos das minhas marés. Se saio arrebentando tudo pela frente
e soltando faíscas por toda a parte, é porque não me respeitam. Não vêem que essas
reações são consequências dos seus erros do passado recente. Esquecem que sou eu a
mãe, a provedora das suas necessidades, a própria subsistência deles e de seus
descendentes.
– Já disseste isto a eles?
– Já lhes disse que se eu sucumbir, irão junto comigo. Já expliquei também que só
necessito de tratamento fitoterápico e que podem abandonar suas fórmulas mágicas,
pois nada substituirá o tratamento natural. Minha recuperação está nos cuidados com
meus pêlos verdes, minha crosta, meus minerais. Basta que os preservem e os usem
racionalmente.
– E o que responderam?
– Rebelaram-se. Disseram que têm planos para me depilar toda. Precisam viabilizar
obras gigantescas, como o túnel que vai da América do Norte à Europa. Querem
também esgotar a exploração de matéria-prima da minha crosta para construir mais
usinas, mais veículos, mais cidades. Estão loucos porque o petróleo está acabando.
– Fizestes algum exame de saúde?
– Sim. Fiz uma densitometria. Descobriram que minha estrutura mineral está bastante
comprometida, por causa do crescimento desordenado das cidades e do uso
inadequado do solo. Chamam isto de terrosteoporose. Os exames mostraram também
que o gás ozônio está me causando radiação ultravioleta, com lesões irreversíveis na
minha crosta, e queda da capacidade imunológica.
– Ainda assim, consegues trabalhar?
– Mais ou menos. Já não posso plantar onde estou e nem colho o que planto onde
consigo plantar. Os que pensam no seu futuro e, consequentemente, no dos seus
descendentes protestam a meu favor porque sabem que estão e estarão sempre ligados
a mim pelo cordão umbilical. Mas a grande maioria não se importa. Quer viver apenas
hoje. Comporta-se como se fosse imortal. Nem mesmo com as gerações futuras quer
compromissos. Eles dizem que quando eu não servir mais para nada, vão se mudar
para outro planeta. Estão de olho em Marte.
– Mas lá não é muito frio?
– É. Mas estão procurando um jeito de torná-lo habitável. Vê como são as coisas! Passei
milênios dando-lhes o pão de cada dia e eles não reconheceram a minha dedicação e o
meu desprendimento. Nunca me disseram: – Muito obrigado, Mãe-Terra. Ao contrário,
agiram como filhos ingratos e insaciáveis. Sempre acharam pouco o que eu lhes
oferecia. Extraíram de mim o que eu tinha de melhor. Destruíram gerações e gerações
da minha fauna e da minha flora. Fiquei pobre e doente. Quando meu estômago
começou a se revirar, com enjôos pelas porcarias que me fizeram engolir, comecei a
vomitar. Vomitei e ainda devo vomitar muito mais detritos e lavras. Estou muito
desgostosa e cansada. Talvez seja melhor mesmo que saiam da barra da minha órbita.
Quem sabe, depois disso, eu ainda tenho alguma chance de me recuperar?
– Não fica assim tão triste, Mãe-Terra! Olha, nós, poetas, estamos preparando uma festa
especialmente para ti. Vamos protestar veementemente contra os maus-tratos dos
nossos irmãos, trabalhar para abrir-lhes os olhos, provocar mudanças significativas.
– Obrigada, filha.
– Não há de quê. É minha obrigação. Bem, para encerrar esse telefonema, aí vai mais
um versinho para alegrar tua noite:

“ Dorme em paz, Mãe-Terra querida
Que a deusa Gaia te mostre, em sonhos,
O resgate nos teus filhos do respeito à vida
E devolva à natureza seres risonhos”.

Confira a publicação original – https://rl.art.br/arquivos/5193087.pdf?1428459747

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir ao próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (levar música ao vivo para casas de idosos é uma das frentes de atuação, iniciada em 2007), além de assegurar espaços na agenda para o exercício do autoconhecimento e para a meditação, no caminho da evolução pessoal permanente . Gosto de ler, de aprender coisas novas, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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4 respostas para Uma crônica especial para celebrar o Dia Mundial da Terra!

  1. Jose Paes Landim disse:

    Parabéns à escritora, ambientalista e poetisa, Sandra Fayad, pela sua justa homenagem ao nosso Planeta, do que melhor e mais de perto nos fala sua crônica MÃE TERRA. Parabéns redobrados.

  2. Agradeço ao Clóvis Dáttoli pela gentileza de publicar esta crônica, que visa chamar a atenção para a necessidade de um melhor olhar para o Planeta Terra, em uma linguagem bem singela. Gratidão também ao colega José Paes landim pela generosidade do comentário, que só estimula a produção de mais e melhores textos nessa linha.

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