Sobre a morte e o morrer – Crônica do genial Rubem Alves!

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De volta com o genial escritor mineiro Rubem Alves (1933 – 2014), reproduzo a publicação abaixo, na verdade uma crônica, publicada originalmente em 2003 (Sobre a morte e o morrer), que vi postada dias atrás no blog ZÉducando.  

Saliento que essa crônica está em linha com postagem feita aqui no mês passado, “Como os Médicos Morrem” (https://obemviver.blog.br/2017/08/15/para-saber-e-refletir-como-os-medicos-morrem-por-dra-ana-coradazzi/), e que teve significativo impacto junto ao público que acompanha este blog.

A meu ver, trata-se de assunto que realmente merece boa reflexão. Com efeito, em que pese, nos últimos anos, a assistência multidisciplinar para pacientes em estado terminal, chamada de “cuidados paliativos”, venha se tornando mais conhecida e até ganhando espaço, o que significa alguma evolução, não podemos perder de vista que esse recurso é ainda muito limitado, em face do tamanho da nossa população e da própria realidade do país. Na verdade, percebo haver muito o que se avançar a esse respeito em termos de compreensão, enfrentamento e abordagens pelos pacientes, familiares e também pelos profissionais de saúde.

Portanto, a abordagem trazida por Rubem Alves, com a sua notória maestria, segue atual e muitíssimo pertinente!

Leiam (e reflitam) – a seguir:

“Sobre a morte e o morrer

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O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mario Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

— Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12.10.03.

FONTE: http://www.revistaprosaversoearte.com/sobre-morte-e-o-morrer-rubem-alves/

Publicado em: https://joserosafilho.wordpress.com/2017/09/03/sobre-a-morte-e-o-morrer/#comment-9660
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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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9 respostas para Sobre a morte e o morrer – Crônica do genial Rubem Alves!

  1. Eliana Cristina de Lemos Ornellas disse:

    Maravilhoso! Compartilhei.

  2. Zé Rosa disse:

    Caro amigo, entendo que a maior missão do blogueiro é exatamente essa: espalhar coisas boas. E nosso Rubem Alves foi um dos maiores. Abraços, José Rosa.

  3. Pingback: Sobre a morte e o morrer – Crônica do genial Rubem Alves! — O Bem Viver – O PODER DA LEITURA

  4. Me fez chorar. Vejo minha mãe envelhecendo e bate um medo as vezes e uma nostalgia do tempo da juventude. Eu diria que essa transição da juventude para a fase adulta, e da velhice e morte tao necessária para nosso crescimento e desenvolvimento pode ser tao triste. Por isso tentamos não pensar sobre isso e acho que é sim o melhor a fazer, viver e viver olhando sempre para frente acreditando que sera sempre melhor, seja aqui ou em um outro plano, o melhor a fazer é ter fé de que a vida continuara sempre.

  5. ♡Recitos disse:

    Lendo das aulas sobre cuidados paliativo!Muito reflexivo!

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