A arte de ouvir o lado inaudível das coisas

Tenho clareza de que procurar perceber o que não foi dito pelo outro, as sutilezas das circunstâncias e do ambiente, os sentimentos não pronunciados – as emoções – é sinal de evolução. Por exemplo, a habilidade de demonstrar empatia nas relações interpessoais, um dos fatores de inteligência emocional, tem um pouco a ver com isso.

Portanto, prestar atenção nos outros, nas suas necessidades e sofrimentos não verbalizados, nas sutilezas que envolvem uma interação pessoal, é um belo exercício e demonstração real de que você se importa com alguém, de que quer entender essa pessoa. Somente assim pode-se avançar para além das superficialidades.

Aliás, a afirmação de Antoine de Saint-Exupéry, em seu livro O Pequeno Príncipe, ecoa cada vez mais forte:

“O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração.”

E uma excelente reflexão a esse respeito foi trazida no texto que transcrevo abaixo, sobre “ouvir os sons do silêncio (o lado, a princípio, inaudível)”, em publicação feita no portal eletrônico da Revista Pazes. Vejam esta historinha bastante ilustrativa e ao mesmo tempo instigante. Fica o desafio para todos nós, de buscar expandir as nossas percepções, num processo de continuada evolução pessoal/espiritual.

Boa leitura!

“A arte de ouvir o lado inaudível das coisas

Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande mestre com o objetivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa.

Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre o mandou sozinho para uma floresta.

Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta.

Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir.

Então disse o príncipe:

“Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus…”

E ao terminar o seu relato, o mestre pediu que o príncipe retornasse a floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível.

Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do mestre, pensando:

“Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta…”

Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo…, mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao mestre.

Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes.

E quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam.

Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz.

Pensou: “Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse…”

E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente.

Queria ter certeza de que estava no caminho certo.

Quando retornou ao templo, o mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.

Paciente e respeitosamente o príncipe disse:

“Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite…”

O mestre sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse:

“Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa.

Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender as reais necessidades de cada um.

A morte do espírito começa quando as pessoas ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem se atentarem no que vai no interior das pessoas para ouvir os seus sentimentos, desejos e opiniões reais.

É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não mensurado, mas que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser humano…”

Do livro – “Histórias da Tradição Sufi” – Editora Dervish

FONTE – Nasrudin

Publicado em – http://www.revistapazes.com/os-sons-do-silencio-reflexao/

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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6 respostas para A arte de ouvir o lado inaudível das coisas

  1. Maria do Rosario Pereira de Freitas disse:

    Parabéns pela escolha dos temas dos seus posts. São diversificados, nos proporcionam momentos de reflexão. Trazem ensinamentos, “conversam” com a modernidade sem desprezar legados, nos motivam… Obrigada por compartilhar esses assuntos conosco. Vale, de fato, a leitura.
    Rosário Freitas

    • JCDattoli disse:

      Obrigado, Rosário, pelo seu gentil comentário. Fico lisonjeado e, claro, feliz pelo indicativo de alinhamento das postagens com as expectativas do público do blog!
      Agradeço, ainda, pela sua presença por aqui!
      Abraço fraterno,
      Clovis

  2. Luiz Roberto disse:

    É tudo que queríamos ouvir, saber que existem pessoas capazes de ouvir palavras não pronunciadas de amores não declarados. Parabéns e muito obrigado.luiz

  3. dulcedelgado disse:

    Muito importante e verdadeiro!
    Mas assusta perceber que cada vez é menos real a atenção pelo outro, pelo silêncio, pelo que não tem barulho nem imagem.
    As distracções são imensas e a atenção está constantemente centrada nas tecnologias, no telemóvel, nos headphones, nos vídeos, nos jogos, etc….ou seja, no oposto de ouvir o silêncio.
    Quanto a ter atenção pelo outro…algo difícil…quando assistimos ao surgir de uma geração narcisicamente centrada em si própria, o que se reflecte na febre das selfies, na proliferação de canais de youtubers onde falam de si próprios e muitas vezes de coisas absurdas…
    Por vezes…é tão difícil compreender o que nos rodeia! Especialmente quando se sente que o que é mesmo essencial, é simples e silencioso.
    Textos como este são uma pérola…e sempre, sempre uma esperança!

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