“Geração com mais de 50 anos revoluciona velhice e cria ‘gerontolescência’, diz guru da longevidade”

Tenho comentado neste espaço, em diversas oportunidades, que o fenômeno da longevidade está trazendo grandes alterações sociais e econômicas, a partir das transformações comportamentais e de estilo de vida de uma população idosa que não para de crescer. Está instalada, portanto, uma verdadeira revolução, com quebra de antigos comportamentos e de referenciais, por conta da grande massa de habitantes que passam da meia idade, cabendo acentuar que as dimensões dessa revolução ainda estão longe de ser plenamente compreendidas, ou reveladas!

Uma das consequências cada vez mais visíveis desse processo, entre tantas que vão ocorrendo, é a crescente presença de pessoas idosas nos ambientes de trabalho, como bem retratada no excelente filme Um Senhor Estagiário (do título original The Intern), dirigido por Nancy Meyers, estrelado por Robert de Niro e Anne Hathaway.

Nesse contexto, e com o propósito de despertar para a necessidade de que as pessoas se preparem e tenham seu projeto de vida para um pós-50 cada vez mais longo e promissor, venho trazendo frequentes publicações a respeito dessa temática, que abrange a aposentadoria e o envelhecimento ativo. Para hoje, reproduzo interessante e informativa matéria, publicada no portal da BBC Brasil, com entrevista do médico brasileiro Alexandre Kalache, conhecido especialista e referência internacional no assunto.

Confiram:

Geração com mais de 50 anos revoluciona velhice e cria ‘gerontolescência’, diz guru da longevidade

Grupo de idosos dança na rua em SP                            Image caption Kalache defende que as boas relações sociais são essenciais para uma boa velhice

Envelhecer não é mais o que era antes graças aos baby boomers, que estão transformando esse período e vivendo de forma diferente das gerações anteriores – é o que diz uma das maiores autoridades em envelhecimento do mundo, o médico brasileiro Alexandre Kalache.

Em entrevista à BBC Brasil, Kalache diz que o brasileiro terá que trabalhar mais tempo “quer goste ou não”, acima de tudo porque terá uma vida mais longa. Mas a boa notícia, afirma, é que a chegada à velhice da geração do pós-guerra cria uma nova construção social, o que chamou de gerontolescência.

Segundo Kalache, os baby boomers – geração que nasceu no pós-guerra (1945-1964) e que atualmente tem mais de 50 anos – estão revolucionando a velhice e transformando o período em uma nova fase porque são em maior número, têm um nível de saúde e vitalidade maior e melhor formação do que as gerações que envelheceram antes deles.

Para o médico, que atuou como diretor de envelhecimento na Organização Mundial da Saúde e já lecionou sobre o tema em universidades como a de Oxford, isso abre a possibilidade de promoção de uma nova forma de envelhecer, que vem sendo construída socialmente por esse grupo.

“A gente revolucionou o conceito de fazer a transição da infância para a idade adulta e criamos uma coisa que não havia antes da Segunda Guerra Mundial, que é a adolescência”, explica Kalache, ao explicar que a adolescência como construção social não existia antes dos anos 1950.

“Fizemos muita coisa que está aí: a revolução sexual, a pílula, as revoluções musicais, a luta contra a ditadura – não vou deixar de ser essa mesma pessoa de 50 anos atrás. Eu e esse grupo todo, os baby boomers, estamos envelhecendo com isso tudo como legado. E daqui a um tempo vamos olhar para trás e ver que, assim como criamos a adolescência há alguns anos, estamos criando a gerontolescência”, diz ele.

Para ele, no entanto, há uma diferença entre essas duas construções sociais. “A adolescência deve durar quatro ou cinco anos – se durar mais tem algo errado. Mas a gerontolescência é para durar 20, 30, 40 anos. É muito tempo para a gente se rebelar, virar a mesa.”

Rio de Janeiro                            Image caption Praticar exercícios e se manter atualizado e ativo ajudam no curso do envelhecimento

Encarando a morte

Para tratar do tema do envelhecimento em palestras, Kalache costuma pedir à plateia que imagine rapidamente como vai morrer. O exercício, segundo ele, serve para mostrar como há uma “idealização da morte que já não é mais a regra”.

Isso porque, diz ele, “vamos morrer mais velhos, mais doentes e mais lentamente do que muitos imaginam”.

“A gente tem que se preparar para uma vida muito mais longa e pensar no processo de morte, porque no Brasil três quartos das mortes são de pessoas idosas e por doenças crônicas, inclusive aquelas arrastadas que causam sofrimento e despesas. Então é preciso tentar assegurar qualidade de vida até o final.”

E essa é uma realidade que deve ser levada em conta especialmente no Brasil, que envelhece a passos largos. Estimativas da Organização das Nações Unidas apontam que até 2050 o Brasil terá 64 milhões de idosos – ou 30% da população, em comparação aos atuais 12%. Em 2001 esse total era de apenas 9%. Em menos tempo – em 2025 – o país deverá ocupar o sexto lugar em número de idosos no mundo.

Para Kalache, além de estar envelhecendo rapidamente, o Brasil percorre esse caminho em um padrão sem precedentes.

“Estamos envelhecendo com uma grande parcela da população em pobreza. É um desafio grande porque não temos precedentes, modelos. Nenhum país até hoje envelheceu sem ser rico. E estamos envelhecendo rápido e ao mesmo tempo sem recursos para políticas sociais e de saúde que possam responder a uma população já muito envelhecida, como seremos em três décadas.”

Alexandre Kalache                         Direito de imagem AGÊNCIA CÂMARA Image caption Kalache diz que ‘gerontolescentes’ farão nova construção social sobre a velhice

Mais trabalho

Então vamos ter que trabalhar mais? Kalache, que atualmente preside o Centro Internacional Longevidade Brasil, responde que sim, e vai além: critica o “luxo” do nosso sistema previdenciário atual.

“Vai ter que trabalhar mais tempo? Eu acho que sim. Um país como o Brasil que se dá ao luxo de ter a aposentadoria média aos 54 anos é um país inviável. Não existe nenhum país que tenha conseguido por muito tempo manter tanta gente aposentada, sobretudo porque a base da pirâmide, que são os jovens, está diminuindo. Então, a gente goste ou não, vamos ter que nos preparar para uma vida laboral mais longa. E já que vai ter que trabalhar mais tempo, vamos trabalhar para ter projetos e para ser estimulante”, opina.

posto da previdência                       Direito de imagem AG. BRASILImage caption Kalache defende que aposentadoria atual é insustentável

Por isso, segundo ele, será necessário pensar em uma política pró-natalidade para equilibrar a pirâmide social, ou seja, ter uma proporção menos desigual de jovens e idosos no país, e ainda garantir um envelhecimento melhor aos mais velhos.

Ele afirma que, para isso, são necessários quatro capitais fundamentais: saúde, conhecimento para não se tornar obsoleto (o manter-se antenado), bem-estar financeiro e bem-estar social (ou o “capricho nas relações para ter para a quem recorrer quando o negócio apertar”).

“A gente sabe que a pensãozinha só no fim da vida não vai dar conta. Aproveite para fazer suas economias porque, no final da vida, a gente precisa de mais renda e mais dinheiro, e não de menos.”

Fontehttp://www.bbc.com/portuguese/geral-40336295

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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4 respostas para “Geração com mais de 50 anos revoluciona velhice e cria ‘gerontolescência’, diz guru da longevidade”

  1. Eliana Cristina de Lemos Ornellas disse:

    Muito bom!
    Me representa!

  2. dulcedelgado disse:

    Interessante artigo!

    Em Portugal os problemas são semelhantes. Já somos um povo de idosos e a tendência diz que seremos muitos mais daqui a uns anos, porque a natalidade é baixa e piorou muito com a crise que passamos. Agora parece que está a querer melhorar….
    Mas a idade de reforma em Portugal é, neste momento, os 66 anos. Só com essa idade a pensão é completa. Alguns, se começaram a trabalhar muito novos, podem ir mais cedo, mas por enquanto, ainda com penalização.
    Há 30 anos atrás, foram muitos os que se reformaram com 50 e poucos anos. Agora, estamos nós a pagar por esse facilitismo. E para os nossos filhos, não sei como vai ser.

    • JCDattoli disse:

      Obrigado, Dulce, pelo seu comentário!
      Claro que esse é um problema mundial, na esteira do aumento da expectativa de vida. Também no Brasil estamos em meio a discussão legislativa para alteração das regras de aposentadoria, mais uma vez, com alteração de idade mínima, atualmente de 60 anos para homens e 55 para mulheres. Mas ainda há muito embate pela frente.
      De todo modo, o certo é que a longevidade vai fazer as pessoas ficarem mais tempo em atividades as mais diversas, incluindo o trabalho remunerado. Como tudo na vida, esse prolongamento da vida traz os seus bônus e inquietações, a tirar pelas questões com sistema de saúde, oferecimento de serviços antes não existentes etc.
      Abraço

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