PÁSCOA PARA TODOS – Uma inteligente crônica social!

Ainda a pretexto da celebração da Páscoa, reproduzo a bem escrita e pertinente crônica PÁSCOA PARA TODOS, da escritora Gracia Cantanhede, que vi hoje publicada em seu perfil no Facebook.

Trata-se de reflexão sobre a gritante desigualdade social que ainda se constata em nosso país. Diante de tal realidade, a abordagem desse tema é sempre oportuna e bem-vinda! 

Leia a seguir:

Resultado de imagem para desigualdade social no brasilImagem – Caros Amigos

“PÁSCOA PARA TODOS

Maria Amélia telefonou para os filhos de sua cobertura, ao lado do Meridién, ontem ao meio-dia. Deseja almoçar com eles, domingo, no Saint Honoré, para comemorar a Páscoa. Sabe que os filhos gostam de salmão marinado e lagosta regada a vinho francês. Antes, porém, fará a entrega dos chocolates encomendados na Godiva, os mais gostosos e bonitos, sem dúvida.

O cabelereiro virá atendê-la, hoje, depois da sessão de ginástica e massagem. Também a manicure e a modista passarão pelo seu apartamento à tarde. Ufa, resmungou Maria Amélia. Sua agenda está lotada. Quantos compromissos assume quando está no Brasil. Em Paris tudo é muito mais tranqüilo. Afora os jantares e recepções elegantes, não há muitas preocupações.

Aqui, prefere não andar a pé. Nem mesmo faz o passeio no calçadão. Amanhã, irá de casa para o restaurante sem olhar para os lados. Também, com tantos mendigos, tanta gente molambenta, prefere mesmo o carro com vidro fumê, bem escuro, que evitam aqueles olhos famintos devorando suas belas roupas e jóias.

Seguranças, já tem dois, e seu edifício contratou outros três para fazerem a ronda, dia e noite, evitando qualquer surpresa desagradável.

Ali ao lado do prédio, sob uma marquise, Joana ouve o filho de treze anos avisar: “Mãe, não aguento mais dormir sem jantar e acordar e não tomar café. Vou roubar”.

Ele acordara há pouco, com a sirene da polícia apitando para ordenar o trânsito em Copacabana, às sete horas.

Perto dela, outras mulheres e crianças também se levantam, dobram e juntam num canto os pedaços de papelão usados durante a noite para se protegerem do chão frio.

Alguns fazem o ritual matutino e lavam o rosto num resto de água guardada do dia anterior.

Leite quente? Nem pensar. “Se a gente fizer fogo aqui, o pessoal chia”.

Joana nem se lembraria que domingo é dia de festa, não fossem os ovos de Páscoa, lindos, pendurados às centenas na padaria onde foi pedir um pouco de café e um pedaço de pão.

Páscoa. Festa anual dos cristãos. Joana abaixa a cabeça. Não devem ser os mesmos que a deixam ali doente, no chão, suja, faminta, ouvindo o choro dos filhos que colocou no mundo quando ainda o marido tinha emprego e juntos cuidavam com carinho do barraco no Morro do Jacaré. Agora, nem barraco, nem marido. Só fome e desolação.

Qual o cristão que a empregaria em sua casa, assim, doente e suja, moradora de rua?

Já catou lixo para viver, quando chegava às cinco horas da madrugada no lixão, às margens da rodovia que liga o Rio a Belo Horizonte, mas, agora, a fraqueza nem permite mais andar tantos quilômetros carregando o fardo pesado nas costas até o ponto de venda daquelas tralhas.

Joana não imagina um dia comer salmão ou lagosta, nem tampouco sabe que o preço do almoço no restaurante Le Saint Honoré daria para ela viver com dignidade, por mais de um mês, com seus dois filhos menores.

Também não sabe que o preço de apenas um ovo de Páscoa sofisticado daria para ela e os meninos almoçarem a semana toda.

Enquanto Maria Amélia estiver saboreando as delícias do restaurante de primeira classe, Joana estará de mãos estendidas na calçada, pedindo, implorando um pedaço de pão. Seguramente, a dor de sua alma não a permitirá parar na banca de jornal, onde uma revista com letras garrafais descreve o delírio de fome de Anselmo, quatro anos, que na noite antes de morrer, perguntou: “ Mãe, no céu tem pão?”

O pão de Cristo dividido na ceia é o mesmo sobrando em muitos lares e jogado no lixo. Aquele lixo revirado por família inteiras, no ritual mais humilhante possível.

Maria Amélia e Joana irão passar o domingo de Páscoa bem perto uma da outra, mais jamais saberão da distância que as separam, porque estão no Brasil, onde é normal a desigualdade, é tão comum a falta de consciência. Talvez, por isso mesmo, seja o país campeão mundial em venda de ovos de chocolate.

Falando assim parece até que a festa da Páscoa, aqui, é para todos. 

Gracia Cantanhede. 

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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