Refletindo sobre a saudade e o vazio deixados pela minha cadelinha Mell

“As únicas criaturas que são evoluídas o bastante para carregar o amor puro são cachorros e crianças” (Johnny Depp)

Já fiz aqui algumas postagens sobre a importância e a beleza da convivência dos humanos com os pets, particularmente com os cães, essa espécie que é muito familiar para mim, desde a infância.

Hoje, ainda abalado e com a emoção à flor da pele, quero refletir um pouco sobre o sentimento de perda que ora toma conta de mim, como nunca ocorrera antes, daqueles que assumem uma dimensão impactante, inusitada e até mesmo surpreendente.

Já experimentei dois momentos de perdas anteriores com outros cães, o primeiro com a morte de Babi, uma cadela da raça Beagle, acometida de câncer, que, dadas às circunstâncias e o seu próprio temperamento mais arredio. tivemos uma aceitação da morte bem tranquila. O segundo, mais dolorido, se deu quando tive que deixar a minha linda Daphine, da raça pastor alemão capa preta, que doei para o veterinário que cuidava dela, em virtude de mudança compulsória, a serviço, para outra cidade, que representava  deixar de morar em uma casa e, doravante, viver em apartamento. Foi sofrida a separação, que me arrancou lágrimas algumas vezes e ainda remanesce latente como um processo mal resolvido!

Mas com a Mell, minha Schnauzer de pelagem preto e prata, que nos deixou no último sábado, dia 4, o vazio e a saudade estão muito fortes. Busco entender os motivos de todo este sentimento, tendo a convicção, obviamente, de que o impacto e sofrimento de agora se dissiparão com o passar dos dias e logo aprenderemos a viver sem a presença dela aqui conosco.

Mas o fato é que a relação com a Mell sempre foi muito diferenciada. Tudo começou quando, ao ingressar no elevador do prédio em que morávamos (eu e meu filho mais velho), deparamos com uma moradora que transportava, em um cesto, a ninhada com seis filhotes da raça Schnauzer miniatura. Aquele momento, acontecido há quase 13 anos, foi mágico, talvez avassalador, e aquela imagem jamais saiu da minha cabeça. E não poderia ser por acaso. No dia seguinte estávamos lá, no apartamento da Dona Dora, escolhendo a mascote que levaríamos para viver conosco e nos proporcionar muita alegria. Eu e meu filho dissemos a nossa preferência, queríamos uma fêmea. E ela, com a sua formosura e precoce altivez, certamente nos escolheu naquele instante!

A Mellzinha, dominadora do espaço e figura marcante em nossa residência, era chamego dos meus filhos, também da minha mulher, dos familiares e até dos empregados que por lá passaram. Entretanto, tinha um apego por mim que saltava aos olhos de todos. Dormia ao lado da minha cama e estava sempre por perto, onde quer que eu estivesse, salvo na hora da comida, que a sua atenção se voltava para a minha esposa. Sua saudação pela nossa chegada em casa, com peculiares gritos e choros de alegria, eram a expressão festiva do amor que nos dedicava e verdadeira terapia para amenizarmos os dias estressantes e o mau humor.

A saúde sempre ameaçada

Ao longo da sua vida passou por três cirurgias, sem maiores problemas. Nesse particular, tivemos a sorte de contar com uma única veterinária que acompanhou nossa “filhota” desde o início, o que nos dava especial tranquilidade.

Essa amizade e cumplicidade silenciosa, que marcava a nossa convivência (ela e eu, eu e ela) se intensificaram quando, aos oito anos de vida, a Mell foi inesperadamente acometida pelo diabetes tipo 2, uma doença de complicação ainda maior nos caninos, que depois viemos a saber ser bastante presente na raça Schnauzer. A partir dali, a Mell passou a requerer maior acompanhamento, regulares medições do nível de glicemia, visitas mais frequentes aos veterinários etc. Salvo nas minhas ausências, a aplicação de insulina, da qual era dependente, duas vezes ao dia, após alimentação, era por minha conta.

E nosso amor só cresceu com o passar do tempo. Como consequência do diabetes, houve rápido surgimento e avanço de catarata nos olhos da Mell. Com isso, sua acuidade visual foi se reduzindo, culminando com a perda total da visão alguns meses atrás. Esse acontecimento trouxe considerável desequilíbrio emocional para ela, ao que se associavam outras complicações, como gradual comprometimento das funções hepáticas e renais, além de crescente perda de apetite etc., cujo conjunto de complicações acabaram determinando a morte ainda precoce da nossa Mellzinha, com menos de 13 anos de idade, que se deu três dias atrás.

A dimensão em que orbitam os cães tem algo de superior

O impressionante é que, com todo um quadro de adoecimento cumulativo e de um processo de limitações e sofrimento que se agravavam a cada dia, sofrimento que afetava a todos nós da casa, a morte da Mell trouxe-nos um abalo muito grande. Ou seja, aquele quadro não foi o bastante para nos preparar para um desfecho que não seria surpresa. Para mim, em particular, esse luto e sentimento de perda se explica porque se foi uma companhia muito especial e uma amizade linda e pura. Foram doze anos e meio de amor, de um amor verdadeiro, desinteressado, fiel, como é natural da espécie canina, certamente por isso mesmo tão admirada pelos humanos. Aliás, eu sempre achei que os cães atuam numa ordem espiritual, de percepção e de sensibilidade fora da nossa, bem mais evoluída (ou pelo menos) além do nossa capacidade de compreensão.

“Um cão é a única coisa na terra que o ama mais do que ama a si mesmo.”  (Josh Billings)

Não é por acaso que Shane, um pequeno menino norte-americano, perguntado se compreendia o porquê de a vida dos cães ser bem menor do que a nossa (fiz postagem aqui no blog sobre essa historinha, em 23/12/2015), ele, surpreendentemente, disse:

”Eu sei por quê.” E completou: ” a gente vêm ao mundo para aprender a viver uma boa vida, como amar aos outros o tempo todo e ser boa pessoa, né?”

” Bem, como os cães já nascem sabendo como fazer tudo isso, eles não tem que ficar por tanto tempo como nós.”

Nessa busca de entendimento, recebi de um familiar o artigo escrito por Márcio Martins da Silva Costa, baseado na Doutrina Espírita, com explicação a respeito do destino que ganham os cães após falecerem, publicado no site Agenda Espírita (http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2014/09/22/onde-estara-meu-caozinho-que-morreu/). Do belo texto, transcrevo os dois últimos parágrafos, que a meu ver trazem preciosa sabedoria para momentos como esses:

“Cabe, então, de nossa parte, cuidarmos da melhor forma possível destas criaturas que nos foi dado por Deus para nos auxiliar, e no caso de outros animais, vestir e secundar. Se a perdermos pelas vicissitudes naturais da carne, devemos buscar na resignação e na fé Divina o agradecimento pela oportunidade que tivemos de evoluir nossos sentimentos e percepções através do ser que nos foi colocado em nosso caminho.

Lágrimas e dor são legítimas na perda destes amigos de estimação e devem ser respeitadas por tratarem-se de sentimentos humanos. Mas esta dor deve ser, tão logo possível, substituída por outros sentimentos motivadores ao progresso individual. Sejam eles representados por novos amigos de estimação ou outros focos para onde possamos convergir nossos sentimentos.”

Também, a propósito, recordei-me de crônica publicada pelo escritor Carlos Heitor Cony, em homenagem à sua amada cadelinha Mila. Vários trechos da crônica, olhando com mais vagar, traduzem agora a minha percepção e sentimento em relação à amizade com a Mell. Segue a transcrição:

“Mila”, por Carlos Heitor Cony

“Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento? Amá-la — foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos’; como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.

Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade. “

O texto acima foi publicado no jornal “Folha de São Paulo” , edição de 04-06-1995, e faz parte do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolhas – São Paulo, 2001, pág. 318, organização de Arthur Nestrowski.

Como última citação, vejam o que disse o poeta tcheco Milan Kundera:

“Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.”

Assim, resta-nos, a mim e aos meus familiares, a sabedoria da compreensão, a certeza de que nos dedicamos e oferecemos à nossa Mellzinha tudo de melhor que nos foi possível, em termos materiais e afetivos, como singela retribuição pelo muito de amor, companheirismo e alegrias que nos dedicou nesses quase 13 anos de convivência. A Mell foi um verdadeiro tesouro, um ser de luz, que deixou sua contribuiu efetiva para o nosso crescimento. E ela partiu, não tenho dúvida, sabendo de tudo isso!

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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8 respostas para Refletindo sobre a saudade e o vazio deixados pela minha cadelinha Mell

  1. Sandra Fayad disse:

    Meus pêsames, Dáttoli. Conheci um pedacinho da sua história com a Melzinha. Sei que a dor da perda é enorme. Sempre me lembro dos cães que tivemos em casa, especialmente do Skipie que morreu em 2016. Foi uma tristeza imensa. E você colocou bem.Eles nos amam mais do que a si mesmos. O Skipie, nos momentos finais de sua vida, tentava heriocamente manter-se em pé para nos arrancar olhares de alegria e palavras de esperança, mesmo custando-lhe sofrimentos adicionais. Que as boas lembranças da Mel console seu coração sofrido.

  2. pejulie disse:

    Sinto muito pela perda de sua cachorrinha. Tenho um filhote que desde que chegou em casa já tem sofrido algumas complicações de saúde. Eu espero que ele consiga superar tudo isso e viver bastante, mas já sofro antecipadamente pela inevitável perda futura. Força para você e sua família!

  3. JCDattoli disse:

    Obrigado pelas palavras carinhosas e de conforto, Julie.Vá curtindo essa rica convivência com o seu pet. Pena que tudo tem prazo de validade!
    Vamos em frente.
    Abraços

  4. Alcebiades Silveira disse:

    Sentimos bastante a perda de mell, ainda mais que convivemos com voces e testemunhamos o carinho de vocês com ela.bola pra frente irmão.
    abraços

  5. Jefferson Queiroz disse:

    Texto lindo e cativante. Linda homenagem!

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