“Digressões Caninas” – Entenda a relação de amizade entre cães e moradores de rua!

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Com alguma frequência trago reflexões aqui neste espaço sobre a amizade entre a raça canina e a humana. E uma relação muito especial, que nos chama a atenção, é a que ocorre entre os cães e os mendigos espalhados pelas ruas das cidades.

Com efeito, gostei bastante do artigo Digressões caninas, do publicitário e jornalista Nelson Cadena, que foi publicado no jornal Correio da Bahia da última sexta-feira, dia 9. Com conhecimento de causa (e vocês verão porquê), o articulista fala desse relacionamento com realismo, riqueza de detalhes e uma emotividade mais do que justificada!

Agora entendo o que justifica esse invejável relacionamento que observamos entre os “vira-latas” e os moradores de rua, por onde quer que se vá. Recomendo a leitura (transcrição a seguir):

“Nelson Cadena: digressões caninas

Não sei se você já reparou a incrível atração que os mendigos exercem sobre os cachorros vira-latas, ou será o contrário? Mas onde quer que há um esmoleiro há um séquito de cachorros que o seguem com fidelidade para além da amizade canina que, desde eras remotas, se atribui ao cão em relação ao homem. E que importa se o mendigo, já alterado por duas doses de pinga, ou um mau pensamento, xinga e chuta o animal, ou se bate nele com um pedaço de pau, enxota, lá estará o cão em volta dobrando o joelho e abanando o rabo como que pedindo desculpas. E logo mais ambos estarão dividindo o mesmo pedaço de papelão no chão frio da calçada e a mesma fome e compartilhando o calor dos corpos e o mau cheiro. E um zela pelo outro, de modo que não há como aferir quem é mesmo o protetor ou o  protegido.

Cães e mendigos têm códigos incompreensíveis para o resto dos mortais, solidários na privação e na rotina, e não há nenhum osso suculento, nem um banho perfumado que seduza o animal e o tire de perto do mendigo, seu servo e senhor. Entre o conforto de uma casa de família, como costumamos dizer, e o desconforto da rua, o cão há de se manter apanhando e dobrando o joelho e abanando o rabo e dividindo a fome. Estranho magnetismo esse que a simples razão não há de explicar.

Talvez o segredo da fidelidade canina, para além da decantada amizade que já rendeu e ainda rende muita prosa, esteja na atemporalidade do estado de mendicância. O morador de rua, diferente dos outros mortais, tem como única referência de tempo o minuto vivido. Para o mendigo, não existe mais tarde, depois, ou, amanhã. Suas necessidades são imediatas, caninas. Digo isso com algum conhecimento de causa, também pernoitei muitas vezes embaixo de marquises, ou em bancos de praça, foi nos meus tempos de hippie, para que fui lembrar disso agora?

Ao anoitecer, o morador de rua, diferente do comum das pessoas, não dorme. Ele morre. Para ressuscitar no dia seguinte, perante os primeiros raios do sol, e então constatar que melhor teria sido continuar sonhando. Dormir na rua é se despedir para sempre, deixar para trás aquilo que não foi, é se conformar com o transcorrido e não há nessa circunstância nenhum sentimento de dor. Mas, acordar, ao contrário, é vivenciar a contrariedade de assumir uma estranha realidade de vazio em volta, é um instante de dolorida e profunda frustração. Uma realidade amarga que um cão se esfregando no pé e mexendo os olhinhos certamente há de compensar.

Também tive um cão entre o limiar da vida e da morte, aconteceu em Berlinque, localidade da Ilha de Itaparica, numa noite de overdose, cinco xícaras bebidas de chá de cogumelos. Então, tinha 22 anos de idade. Pensei morrer, evoquei momentos de dor e de alegria e me despedi de todos os seres que amava, pedi perdão e já me preparava para desencarnar, triste diante desse inesperado fim, quando a lambida de um cachorro me trouxe de volta à vida. Deitado a meu lado acompanhara a minha lenta agonia e, quando o efeito da droga já se dissipara e a certeza de continuar vivo tornara-se eminente, vi o cachorro se enfiar num buraco cavado embaixo de minha cabana de palha.

O segui e me enfiei junto do cachorro. Dormimos abraçados, comovido em lagrimas agradeci ao companheiro inseparável na hora de minha morte. No dia seguinte ouvi os amigos me chamando em voz alta. Foram até o quarto da cabana, não me encontraram. Eu estava embaixo da casa, abraçado ao cão, tudo que naquele momento me restara na vida.

Fonte – http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/nelson-cadena-digressoes-caninas/?cHash=f334aac0c49af706d191de7cb765ef42
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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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4 respostas para “Digressões Caninas” – Entenda a relação de amizade entre cães e moradores de rua!

  1. Sandra Fayad disse:

    O relato é um dos mais emocionantes que já li. Acabo de ver pela centésima vez (creio!), na calçada da praia cenas assim, que sempre me intrigaram. Vontade de abordar o morador de rua para entender melhor aquela relação nãoe faltou. Assim como não me faltou a vontade de alimentar os cães magros deitados ao sol para se livrarem das pulgas e curarem suas próprias feridas. Certa vez não me contive. Fui à farmácia mais próxima é comprei um sabonete antimicótico e dei ao dono. Provavelmente serviu ao banho de ambos.

    • JCDattoli disse:

      De fato, Sandra. Emocionante. A relação dos humanos com os caninos é uma coisa fantástica, das mais belas que nos foi legadas pelo Criador!
      Assim como você, sou muito interessado por essas descobertas que não param de chegar até nós. Ainda bem!
      Abração e obrigado por comentar!

  2. Essa é uma cena que se tornou corriqueira nas ruas. Um relato emocionante. Só que passou por isso, será capaz de contar, o que de fato se sente. De fato existe essa cumplicidade entre o cachorro e homem, diante dessas circunstâncias, mas nunca havia pensado nas razões para isso. Acho que é a própria identificação das carências. Não sei ao certo.
    Belo post!

    • JCDattoli disse:

      Obrigado, Lúcia, pelo seu comentário. Fiquei quase convencido de que o ambiente de carência e ameaças é um algo mais para propiciar a existência dessa relação de cumplicidade que se observa na relação cão e homem de rua!

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