Sobrecarga de informações – Como você está lidando com essa realidade dos dias atuais?

Sobrecarga de informações – Como você está lidando com essa realidade dos dias atuais?

(J. Clovis Dattoli)*

Volto a falar de gestão pessoal e, mais precisamente, da necessidade de atentarmos para a administração do tempo e a melhoria da produtividade, como consequência da sobrecarga de informações a que estamos submetidos. Esse tema vem merecendo preocupação crescente na atualidade, e não é para menos. Incomoda a constatação de que estamos vivendo um grande paradoxo, ante a existência do bônus e do ônus trazidos pela profusão de informações disponíveis nos dias de hoje, que para muitos pode significar uma comprometedora armadilha no tocante à sua capacidade produtiva e até mesmo em relação à sua condição de saúde física e emocional. Você tem observado isso?

Um paradoxo contemporâneo

O bônus, ou o lado positivo e, diria, maravilhoso, é contarmos com o poder fantástico da Internet, mais do que nunca ao alcance de todos – e a todo o momento. Estamos conectados, integrados e informados por múltiplos canais de comunicação, no que estão incluídas, por exemplo, as redes sociais em suas diversas facetas e os e-mails, tudo podendo ser acessado por um único dispositivo, móvel, que aqui simbolizo no smartphone. Para facilitar mais ainda, nos smartphones as mensagens podem ser postadas por escrito ou por voz, sendo que esta última vem se popularizando dia após dia.

O ônus, de outro lado, é exatamente a consequência desse quadro de abundância de informações e de interferências que, notoriamente, leva grande parte das pessoas a ter dificuldade para administrar essa interatividade massiva e, de certa maneira, sem controle. Com isso, percentual expressivo da população vê-se com a produtividade diária comprometida, por dificuldade de foco (de concentração), numa constatação de que as horas produtivas vão ficando cada vez mais curtas. O resultado natural, que a depender do estágio pode até não ser claramente percebido, é o aumento do estresse, do cansaço e a sensação das pessoas de que estão esgotadas!

Práticas começam a ser questionadas e revistas

Registro, com efeito, outra situação que precisa ser refletida, e sobre a qual já comentei em algum momento aqui no blog. Diz respeito à prática decorrente da adoção de uma premissa equivocada, adotada pela grande maioria das pessoas, de que ao mandar uma mensagem, por e-mail ou outro canal de relacionamento social pela Internet, o destinatário deve ler e responder a mensagem que lhe foi endereçada com rapidez. Trata-se, convenhamos, de um grande engano e distorção, até porque, se isso prevalecer sem estar combinado, na prática estará se configurando uma interferência na agenda e, de certa maneira, uma alteração na escala de prioridades do outro. Logo, esse pressuposto só poderia prevalecer se estivesse pactuado com a contraparte, deixando claro, por exemplo, que “vou lhe enviar uma mensagem e você deve ler e responder de imediato, ou em xxx horas etc.”. Acontece que, sem combinação prévia, mas em virtude do ambiente de comunicação instantânea já incorporado aos hábitos culturais, a presunção geralmente adotada é a de que a outra pessoa, destinatária da sua mensagem, está atenta e lhe deve pronto retorno. E tudo isso vai contribuindo para uma atmosfera de ansiedade, de estresse e em efeito cascata.

Felizmente, diante desse turbilhão do mundo contemporâneo real, tenho visto algumas pessoas, destacadamente profissionais liberais, autônomos e microempreendedores, começando a implantar diferentes estratégias de administração do tempo e gestão da agenda diária, como tentativa de implantação de certa disciplina para permitir que se produza e se conclua alguma coisa em tempo razoável, ante as interferências dos canais de comunicação, como antes comentado. E isso é um bom sinal, uma boa reação!

Um outro bom sinal é constatar que a outrora elogiada qualidade da pessoa multitarefa, aquela que procura fazer muitas coisas ao mesmo tempo, começa a ser revisto, justamente porque os indivíduos com esse comportamento pecam pela falta de foco, de qualidade no que fazem e entregam. O que agora se evidencia é que atuação com característica multitarefa pode ser boa para determinada atividade, mas pode restar indesejável e improdutiva para muito tipo de trabalho a ser realizado. Sobre isso, fiz publicação no blog, em 14 de julho, com o título “Você é bom em ser multitarefas – E isso é bom?”, em que comentei artigo do professor e escritor Daniel Goleman – https://obemviver.blog.br/2015/07/24/voce-e-bom-em-ser-multitarefas-e-isso-e-bom/.

E para exemplificar algumas estratégias que começam a ser adotadas para mitigar essa chamada distração digital, observo que integrantes de grupos de WhatsApp já postam avisos informando que, durante determinado período do dia, não se conectarão nem estarão acessíveis; por outra, as pessoas já se utilizam, de maneira crescente, do recurso de suspender a notificação (aviso sonoro) de chegada de mensagens; uma outra dica é, para minimizar interrupções que tirem a atenção, em especial quando existe real necessidade de produzir algo para entrega em tempo certo, evite abrir janelas no navegador com sites e canais de comunicação que não estejam relacionados diretamente com a tarefa em execução.

Ainda mais interessante foi a estratégia utilizada por uma amiga, recentemente, ao solicitar que as mensagens para ela fossem enviadas (centralizadas), durante o dia, apenas para o seu e-mail. Com isso, ela passa a colocar foco em uma única fonte, deixando, por exemplo, o grupo social de que faz parte (pelo WhatsApp) para ser acessado apenas à noite. Claramente, é uma regra de gestão do tempo e de redução das interferências

Por seu turno, consultores e coaches têm também sugerido que pessoas estabeleçam algum tempo por turno, por exemplo, duas horas pela manhã e duas horas pela tarde, para ficar desligadas de todos os canais de comunicação com o mundo externo (telefone, Internet e-mail etc.), com exceção, apenas, para as situações de emergência. Neste caso, pode-se começar com períodos de uma hora (ou até menos) e observar os ganhos obtidos. Tenho certeza de que serão positivos, mas não tenho dúvida de que a adoção da prática requer disciplina e força de vontade, mesmo porque haverá muita tentação no caminho e até mesmo reclamações!

Publicações diversas evidenciam o tema mais e mais

Ultimamente, observo que esse tema tem motivado a publicação de diversos artigos e, mais ainda, inspirado a edição de alguns livros. A prestigiada Revista Havard Business Review – Brasil, de junho de 2015, publica interessante matéria com o título Vencendo a distração digital, trazendo a opinião de dois especialistas a respeito de como lidar com a sobrecarga. Logo no início, registra que “Todos os dias e todas as noites, tanto em computadores de mesa como em laptops, tablets e smartphones, somos bombardeados por tantas mensagens e alertas que é quase impossível nos concentrarmos, mesmo que queiramos… Essa cultura de conexão constante tem um custo – tanto profissional como pessoal.”

A esse respeito, faço referência ao livro A Mente Organizada, Editora Objetiva, em lançamento no Brasil, de autoria do neurocientista americano Daniel J. Levitin, que é professor de psicologia e neurociência na Universidade McGill, em Montreal-Canadá, apresentando ampla abordagem sobre como seu cérebro lida com o excesso de informação.

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O autor oferece diversos enfoques para ajudar o leitor a administrar a sobrecarga de informação, dá dicas de algumas estratégias para render mais em face desse cenário… e por aí vai.

A propósito, a última edição da Revista Exame (nº 1096) trouxe interessante matéria sobre o livro, com o título FAXINA CEREBRAL (pgs. 82 a 84). Destaco trechos da parte final da matéria, que bem ilustra do que estamos falando:

“Cada atualização no Facebook, cada mensagem que recebemos de um amigo compete por recursos no cérebro contra escolhas como decidir entre investir em ações ou títulos ou onde o passaporte está guardado. Assim, encontrar tempo para nossas diversas atividades tornou-se um tremendo desafio. A promessa de uma sociedade computadorizada, nos diziam, era a de que o trabalho chato e repetitivo seria relegado às máquinas, nos permitindo ter mais lazer e perseguir metas mais elevadas. Mas não funcionou assim…”

“Estamos fazendo o trabalho de dez pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, lidando com nossa vida, nossos filhos, pais, amigos, carreira, hobbies e programas favoritos de TV. A necessidade de assumir o controle de nossos sistemas de atenção e memória nunca foi tão imperativa.”

A reflexão final que se impõe

Uma coisa é certa: temos inúmeros fatores concorrendo pela nossa atenção e, naturalmente, comprometendo o nosso nível de produtividade. Diante de tal cenário, espero que essas publicações instiguem reflexões e, quem sabe, mudanças de hábitos que contribuam cada vez mais – e efetivamente – para o nosso bem viver, sobretudo porque, na minha concepção, não é razoável admitir que os recursos criados pelo próprio homem o façam perder o controle da situação!

Dattoli *J. Clovis Dattoli – É Palestrante e Coach. Exerceu destacados cargos como executivo e como conselheiro em importantes organizações públicas e privadas. http://www.clovisdattoli.com.brhttp://www.obemviver.blog.brjcdattoli@dattoli.com.br.
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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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8 respostas para Sobrecarga de informações – Como você está lidando com essa realidade dos dias atuais?

  1. Arnaldo disse:

    Excelente, Dattoli. Abraços Arnaldo

  2. Sandra Fayad disse:

    Ótima matéria, bem fundamentada e útil. Vamos nos controlar para que a máquina seja um instrumento e não nosso Deus.

  3. Landim disse:

    Matéria que se destaca é aquela que, em nosso benefício, nos leva a reflexões, como a que o amigo submete à nossa leitura. Parabéns. Abraços.

  4. Estive no site e gostei muito! Principalmente do vídeo. Parabéns!
    Bela matéria! Nunca fui muito ligada ao face, ou whatsapp, Embora precise estar presente em algum momento, por causa da comunidade literária, e o Whatsapp porque mantenho contato direto com os filhos. Mas, não quero me sentir obrigada a passar o dia lendo e respondendo mensagens, até porque preciso dividir o tempo com outros afazeres, inclusive deixar um tempo para mim.

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