Reflexões e descobertas sobre o poder dos mais velhos!

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Recomendo a leitura do texto que reproduzo abaixo, publicado no blog ZÉducando, de autoria do escritor e psicanalista Contardo Calligaris. Ele nos oferece informações interessantes sobre a atuação diferenciada de pessoas idosas em determinadas atividades, com mais eficácia do que quando realizadas por pessoas mais novas. Isso mostra que os idosos ainda podem desfrutar de inúmeras possibilidades, têm sua utilidade, e com isso estigmas sociais e alguns paradigmas em relação aos mais velhos podem ser superados, aliás, em boa hora, diante do aumento da longevidade e o consequente crescimento da população idosa verificado pelo mundo afora!

” Envelhecer em tempos de PEC

Nosso medo de morrer nos leva a negar nossa velhice iminente: desprezamos os ‘parasitas’ que seremos

Eu era menino quando, no Campo Santa Margherita, meu pai me apontou a casa de Sebastiano Venier, que foi “capitão do mar” (almirante) da frota veneziana vitoriosa na batalha de Lepanto, contra os otomanos, em 1571.

Venier, na época da batalha, tinha 75 anos. Seu braço cansava ao retesar a balestra, e um ajudante se encarregava disso por ele.

Ele lutava de pantufas e dizia que era porque elas não escorregavam na ponte do navio, molhada de água e sangue, mas era por causa dos calos que o impediam de usar botas. Fora isso, ficou o tempo todo plantado na ponte de seu navio, o Capitana.

Já a história de Enrico Dandolo me foi contada diante de quatro homens que subiam a escada da Ponte della Veneta Marina, em Veneza, carregando um ancião numa cadeira.

Talvez meu pai imaginasse que eu menosprezava o inválido; por isso, me contou que Dandolo, em 1204, aos 96 anos, doge de Veneza, foi reconquistar Constantinopla: aos gritos, da ponte de sua galera, pedia que os soldados o levassem logo à terra, na hora do ataque.

Cresci numa época em que a morte era temida, a finitude da vida incomodava a todos, mas ser velho era um valor; a esperança e o dever dos jovens era envelhecer, sem demora.

Assisti a uma mudança cultural tremenda e rápida. Quando cheguei aos 12 ou 13 anos, os adolescentes, recém-inventados, já estavam se tornando objeto da inveja de todos, e os velhos (previamente objetos de admiração) começavam a aparecer como um fardo.

A desculpa era econômica: haverá aposentados demais, que adoecerão, pedindo cuidados custosos. Mas, provavelmente, a verdade é que o medo de morrer nos leva até a negar nossa própria velhice iminente: desprezamos os “parasitas” que seremos.

No entanto, quem disse que os velhos são “parasitas” desprovidos de utilidade social?

Recentemente, a PEC da Bengala modificou a aposentadoria compulsória dos membros de tribunais superiores para 75 anos. O editorial da Folha de 8 de maio pedia que a medida fosse coextensiva a todo o funcionalismo público.

Pode ser que a PEC surja, hoje, como uma manobra política para postergar nomeações de ministros do STF até as próximas presidenciais. Por que renunciaríamos ao patrimônio de experiência dos velhos?

No começo do século passado, a psicologia distinguiu dois fatores de inteligência. Embora discutida, a distinção permanece: grosso modo, a inteligência fluida é a capacidade de se adaptar a situações novas de forma rápida e flexível.

A inteligência cristalizada é construída pelo aprendizado do indivíduo e é uma espécie de sabedoria: permite compreender realidades complexas, estabelecer relações não intuitivas, avaliar e julgar situações contraditórias.

Em 2009, A. Kramer e A. Nunes publicaram uma pesquisa, no “Journal of Experimental Psychology” (http://migre.me/pPIx4), comparando os controladores de tráfego aéreo dos Estados Unidos (que têm aposentadoria compulsória aos 56 anos) com os do Canadá (que só se aposentam aos 64). Eles chegaram à conclusão que a aposentadoria compulsória dos americanos era um desperdício.

Em testes genéricos, os controladores mais velhos eram mais lentos, mas, em testes de decisões ligadas ao tráfego aéreo, sua experiência compensava qualquer perda cognitiva da idade.

Outro exemplo: em 2010, Igor Grossmann e outros publicaram uma pesquisa nos “Proceedings of the National Academy of Science” dos EUA (http://migre.me/pPIZC), mostrando que existem aspectos do pensamento que melhoram com a velhice.

A jovens e velhos, eles apresentaram uma série de histórias ou dilemas que tinham a ver com conflitos entre indivíduos ou entre grupos. E pediram soluções e comentários.

Foi constatado que, em comparação aos jovens ou às pessoas de meia idade, os idosos usam raciocínios mais complexos e enxergam melhor a necessidade de perspectivas múltiplas e de compromissos.

Conclusão: “É recomendável que pessoas mais velhas ocupem funções sociais cruciais, que incluem decisões legais, aconselhamento e negociações entre grupos”.

O campo de pesquisa sobre os efeitos positivos do envelhecimento está aberto.

P.S. O livro de Anne Karpf, “Como Envelhecer” (ed. Objetiva, série ‘The School of Life’, R$ 26,90, 192 págs.) é ótimo e um excelente companheiro para quem está afim de envelhecer e de pensar sobre nossa mudança cultural diante da velhice. Agora, a editora deveria imprimir com fontes mais clementes com a hipermetropia de quem envelhece.

(Contardo Calligaris)

Publicado emhttps://joserosafilho.wordpress.com/2015/06/27/envelhecer-em-tempos-de-pec/#comment-6730
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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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2 respostas para Reflexões e descobertas sobre o poder dos mais velhos!

  1. Os fatos mais incontestáveis da não aceitação da velhice, é o medo da morte e a discriminação por parte dos jovens. O envelhecer é visto como passos firmes e rápidos em direção ao além da vida. Infelizmente o envelhecer lhe coloca à margem de muita coisa. Muitos idosos, em condições plenas de exercerem algumas funções, e necessitados, não conseguem emprego. Assim como não vejo vantagem do aumento do tempo para se aposentar. Desde quando no país idosos não são respeitados. Em muitas empresas são motivos de gozação, quando divergem das opiniões, ainda que tenham a experiente razão. Fora as pilherias, que fazem, quando algo que qualquer pessoa poderia fazer errado, e imputam o fator idade, velhice. Doenças que qualquer um está sujeito ter, se o idoso tem, é idade… fica muito difícil a aceitação dessa idade que chega, sem que se tenha problemas emocionais.
    O livro não li, nem conhecia, mas deve ser bom.

    • JCDattoli disse:

      Sem dúvida, Lúcia. Não podemos desconhecer que existe certo estigma em relação à velhice. De todo modo, sobretudo pela elevaçaõ da expectativa de vida, novas visões vão sendo incorporadas!
      Obrigado pelo comentário!

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