Poema em Linha Reta – Mais uma do genial Fernando Pessoa!

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“Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade”

– Fernando Pessoa, carta a Armando Côrtes-Rodrigues de 19 de Janeiro de 1915. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa).

Semana passada, ao participar de evento em São Paulo, ouvi do palestrante e escritor Roberto Shinyashiki citação ao Poema em Linha Reta, de autoria do grande poeta português Fernando Pessoa (1888- 1935), publicado sob o heterônimo Álvaro de Campos, um dos vários nomes (pseudônimos) utilizados por aquele memorável poeta, escritor e tradutor, cuja obra está aí viva e servindo de inspiração e referência para as sucessivas gerações!

No referido Poema, escrito há mais de cem anos, vemos o autor ironizando e “questionando” a hipocrisia humana. Como se vê, sempre foi característica dos “mortais” a autovalorização, contar vantagem, mostrarem-se mais do que realmente são, aparentarem-se perfeitos… Isso de certa forma pode até se explicar como mecanismo motivacional e regra de convivência, mas o fato é que para tudo existe limite. E Fernando Pessoa, expondo e reconhecendo os seus defeitos, mas de alguma forma incomodado, resolveu nessa obra criticar os “semideuses” e cobrar mais transparência, autenticidade das pessoas, porque sabia que todos os viventes têm imperfeições, ao contrário do que tentam demonstrar.

É um registro que merece ser lido e refletido. Afinal, quem nunca cometeu um ato ridículo?

Eis a transcrição:

“Poema em linha reta 

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Nota: esse poema tornou-se um clássico de Fernando Pessoa, bastante popular aqui o Brasil, tendo sido publicado na Internet por diversas fontes, incluindo narrações em vídeos (Paulo Autran, Antonio Abujama, entre outros).
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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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4 respostas para Poema em Linha Reta – Mais uma do genial Fernando Pessoa!

  1. Sandra Fayad disse:

    Sou fã do realismo poético de Fernando Pessoa. Ele tem bem delineado o comportamento do intelectual português. E é franco.

  2. Ele foi tão atual, que se não citasse autoria, poderia se pensar que se tratava de escritor da atualidade.A hipocrisia e falsidade está arraigado na sociedade. Todos nesse mundo já cometemos erros, já fomos ridicularizados, já passamos por todas as fases. O bom é quando todas elas, servem de lição e nos ensinam. Quando estamos atentos para crescermos com cada uma delas.

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