Aprendendo a viver – Clarice Linspector evoca Thoreau – Excelente!

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Trago hoje mais um texto que de alguma maneira tem a ver com o tema ‘sabotadores ou críticos internos’, sobre o qual temos tratado aqui no blog nas últimas semanas. É certo que nós humanos, com diferença apenas da frequência e intensidade, pensamos negativamente e desenvolvemos crenças limitantes contra nós mesmos, que acabam funcionando como verdadeiros sabotadores da plenitude, do sucesso e da própria felicidade. Assim, quanto mais estivermos atentos e vigilantes a esse respeito, melhor!

Com efeito, merece reflexão a excelente crônica Aprendendo a Viver, publicada em 1968, de autoria da notável escritora Clarice Linspector (1920 – 1977). Vejam quão atuais e estimulantes são os pensamentos do filósofo Thoreau, que serviram de inspiração à autora do texto, demonstrando, em essência, como o ser humano tende a criar as suas limitações e a complicar a sua própria vida, desnecessariamente! 

Leiam a seguir:

“Aprendendo a Viver

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»

A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.

Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.

Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»

E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.

Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».

E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

Clarice Lispector, in Crónicas no ‘Jornal do Brasil (1968)’

Fonte – http://www.citador.pt/textos/aprendendo-a-viver-clarice-lispector

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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6 respostas para Aprendendo a viver – Clarice Linspector evoca Thoreau – Excelente!

  1. O pior carrasco é a nossa própria consciência. Ela nos paralisa. Passei por isso muito tempo. Tudo que escrevia eu condenava e escondia, ou rasgava. Muito deixamos de fazer, por achar que não é tempo, que não está bom. Assim, se Vive insatisfeito e frustrado, por não executar o que se gostaria de fazer.

    • JCDattoli disse:

      Bastante enriquecedor o seu depoimento, Lúcia. Fato é que precisamos enxergar essas aparentes sutilezas, muitas das quais armadilhas que se agigantam e causam estragos significativos.
      Obrigado!

  2. Sandra Fayad disse:

    Grande contribuição a de Clarice Lispector aos leitores da época!
    Duas frases de Thoreau citadas por ela e uma sua, amigo José Clóvis Dáttoli, são dignas de releitura e reflexão: “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.”; “A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.”; “É certo que nós humanos, com diferença apenas da frequência e intensidade, pensamos negativamente e desenvolvemos crenças limitantes contra nós mesmos, que acabam funcionando como verdadeiros sabotadores da plenitude, do sucesso e da própria felicidade.”

    Mais uma vez, obrigada por esta beleza de mensagem, que repasso.

  3. Lucimar beier disse:

    No meu pequeno conhecimento, tudo de resume ao final do texto: “Simplifique.” Estamos vivos hoje, melhoremos agora nosso dia a dia, nossa saúde física e mental, cuidemos do nosso espírito e da nossa felicidade. Muito verdadeiro quando ele relata que ” a natureza adapta-se tão bem ‘a nossa fraqueza quanto ‘a nossa força”. Só depende de nos. Lindo texto! Parabéns pela postagem.

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