Mário Cortella destaca o real valor de se ler um bom livro – Excelente texto!

Crédito de imagem – frenteemdefesabibliotecapublica.wordpress.com

Replico excelente texto que li no blog ZÉducando, no dia 3 passado, de autoria do genial professor, escritor, filósofo e palestrante Mário S. Cortella, falando sobre a importância e o prazer de se ler um livro, especialmente diante da correria do mundo atual, do “não tenho tempo…”! 

Então, convido-os a ler UM PERSISTENTE CIO, abaixo transcrito. É, simplesmente, um banho cultural!

“UM PERSISTENTE CIO

Abraco_no_livresco

É muito interessante observar o quanto a ditadura da velocidade e do “não tenho tempo a perder” retiram do cotidiano das metrópoles (e de suas tristes simulações) uma das mais profundas maneiras de aproveitar, de fato, o tempo: a necessária paciência para a fruição, quase degustação lenta, dos movimentos de busca intensa do prazer originário do universo da leitura. Essa insana tacocracia, vivida sem reflexão, produz uma amarga rejeição à eroticidade inerente aos momentos nos quais é preciso entrar no cio emanado da leitura prazerosa, do mergulho intencional e povoadamente solitário que nos atinge quando nos abandonamos aos sussurros que vêm de dentro.
Por isso, ao escrever sobre A arte de amar (nela incluída a capacidade de não admitir a banalização do erótico e do sexual), o psicanalista alemão Erich Fromm – nas suas geniais tentativas de juntar as concepções de Marx e Freud, que tanto influenciaram a contracultura dos anos 1970 – nos advertiu que “o homem moderno pensa perder algo – tempo – quando não faz as coisas depressas; entretanto não sabe o que fazer com o tempo que ganha, a não ser matá-lo”.
Há frase mais tola do que a daquele ou daquela que diz “acho que, para matar o tempo, vou ler alguma coisa”… Ler um livro para matar o tempo? Não! Afonso Arinos de Melo Franco, importante jurista e político mineiro, conhecido mais por ser autor da primeira lei em 1951 contra a discriminação racial, mas que também era escritor (ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1958, mesmo ano no qual foi eleito Senador), escreveu em A escalada que “domar o tempo não é matá-lo, é vivê-lo”.
Viver o tempo! Vivificá-lo, torná-lo substantivo e desfrutável. Ora, nada como um bom livro para fazer pulsar a vida no nosso interior, vida essa que, quando absortos na leitura, nos faz esquecer a fluidez temporal e nos permite suspender provisoriamente a mortalidade e a finitude. É um pouco a percepção que teve o russo Turgueniev, um dos principais escritores do século 19. Na inquietante obra Pais e filhos escreveu: “o tempo, que frequentemente voa como um pássaro, arrasta-se outras vezes que nem uma tartaruga; mas, nunca parece tão agradável como quando não sabemos se ele anda rápido ou devagar”.
Mas, o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto, é possível estabelecer um critério; um bom livro é aquele que te emociona, isto é, aquele que produz em ti sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, que abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de alguma maneira, te afeta e impede que passe adiante incólume.
A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Álvaro Lins, crítico literário pernambucano que chegou a chefiar a Casa Civil no governo JK, fez uma reflexão no Notas de um diário de crítica que expressa uma parte dessa contraditória agonia: “Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte”.
Certa vez o grande linguista e pensador brasileiro Flaǘio Di Giorgi pergunta a um aluno em um sarau na PUC-SP se ela já houvera lido a Odisseia, de Homero; o jovem, cabeça baixa, um pouco envergonhado, disse que não. Imediatamente, o professor, olhos umedecidos, diz a ele, voz embargada e com a sinceridade de sempre: “Te invejo; eu já li”.
Assim – mesmo que quase tudo hoje em dia dificulte a urgência de vivificar-se com uma boa leitura, especialmente a estafa resultante do desequilíbrio e da correria incessante -, muitos não se deixam humilhar pelos assassinos do tempo; para impedir a vitória da mediocridade espiritual, há os que cantam com Djavan – na belíssima Faltando um pedaço – e sabem que “o cio vence o cansaço”…

(Mario Sergio Cortella, retirado de seu livro ‘Não Nascemos Prontos – Provocações Filosóficas’, Editora Vozes – 2006) “

Fonte Blog ZÉducando (https://joserosafilho.wordpress.com/).

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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3 respostas para Mário Cortella destaca o real valor de se ler um bom livro – Excelente texto!

  1. Zé Rosa disse:

    Muito bom amigo, é como você disse: um banho de cultura !

  2. Creio que a escolha de um livro, é tudo! Existem leituras que parecem nos transportar para o mundo descrito. Outros se tornam tão chatos, que não se consegue passar do primeiro capítulo. Gostei muito da postagem!

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