Excelente análise do filme Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road)!

Crédito de imagem – www.adorocinema.com

Como boa opção de lazer para você aproveitar o seu fim de semana, falo de cinema para recomendar o filme Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road), um drama de 2008 (EUA / Reino Unido), lançado em 2009, dirigido por Sam Mendes e estrelado por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet. Vejam o trailer legendado, a seguir:

E para subsidiar a sua escolha, publico a excelente resenha descritiva, com análise do filme que vai no âmago de várias questões das relações e do comportamento humanos, elaborada por Vanessa Pádua e publicada no seu blog Deus me tirou pra dançar (http://cine-pitaco.blogspot.com.br/), a seguir transcrita: 

” Foi apenas um sonho (Revolutionary Road), 2008 – Direção: Sam Mendes

Esse filme toca em uma frustração muito comum, porém muito camuflada: a de se conformar, de se moldar, de atender um modelo de vida padrão e medíocre, que se conforma em nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, casa própria, envelhecer e morrer – tudo isso sem muitos riscos, sem grandes entusiasmos, sem tesão, sem DHARMA. A frustração de calar uma voz interior que anuncia, grita, exige que a vida seja mais que isso, que proclama que ela é única, que não tem receita, que a nossa felicidade provavelmente está nessa busca que nos faz expandir a partir da vivência de nossas potencialidades. Ouvi-la pode ser um incômodo e, às vezes, preferimos acreditar nada acontecer. Mas, se a ouvimos tão intensa e desesperadamente, é preciso CORAGEM para segui-la.

April e Frank formam o típico casal aparentemente perfeito, classe média dos anos 50. Tudo parece correr como deveria, porém logo April perceberá que não se sente feliz. Ela não se conforma em viver pela metade, uma vida opaca. Quer seguir essa voz interior, pois se sente infeliz ao abafá-la. Vê, como em um espelho, seu marido fazendo o mesmo: desperdiçando a potencialidade de seu ser. Como uma criança que esperneia, grita, se debate revoltada diante do castigo que lhe é imposto, ela luta em sair desse espetáculo maçante que encena uma família americana padrão. No afã de escapar dessa armadilha social, April acredita que a solução está fora – uma mudança de país, deixando pra trás casa própria, trabalho medíocre, vizinhos curiosos, nação. Convence o marido, Frank, que em Paris serão felizes, realizarão seus sonhos juvenis.

Vivendo essa ilusão, cuja solução se resume em mudar de “ares”, vivem dias de extremo entusiasmo com os preparativos: anúncio de demissão no trabalho, aquisição de passagens aéreas, preparação dos filhos, despedida dos vizinhos. Tudo isso gera uma inveja alheia (entre vizinhos e colegas de trabalho), pois deixam pistas evidentes de que todos sofrem da mesma doença, a NORMOSE * (patologia da normalidade).

A vida então flui deliciosamente até que começa a se manifestar a “corrente do medo”, o boicote, que nos faz vacilar, nos faz tremer e duvidar de, até que ponto queremos nos atirar rumo ao desconhecido e sem garantias. Isso nos lembra a Jornada do Herói, de Joseph Campbell – o chamado, as provações, a superação e a conquista de um novo e mais amplo estágio de consciência. Pena que nessa história os personagens principais não superam as “ilusórias” provações.

Uma tentadora proposta de promoção no trabalho e uma gravidez acidental serão nesta história as “provações” que terão que superar. Desculpas inconscientes para justificar uma acomodação vergonhosa (afinal, já se reconheceu a voz interior) e sem riscos a uma vida sem graça e previsível. É o preço que se paga por não lutar pela felicidade.

Mas até aqui não há nada de tão incomum ou espetacular que fizesse desse filme uma obra marcante, a não ser a atuação brilhante de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

O que torna esse filme um cinco estrelas, digno de entrar para a lista dos melhores filmes de todos os tempos, é a forma como é deflagrada toda essa trama inconsciente de boicote à possibilidade de ser feliz – a aparição daquele que vai apontar de forma transparente e lúcida o mundo de ilusões em que os personagens estão imersos. Esse papel caberá a John, o filho “louco” dos antigos proprietários da residência do casal principal, que acaba de sair de uma clínica de recuperação. Em uma cena brilhante que se dá em volta da mesa de jantar dos Wheeler, John, com seu total descompromisso em atender os padrões de comportamento social, curado da normose que nos priva de viver a autenticidade de nosso ser, é o responsável por desvelar o boicote no qual o casal está se infligindo.  É o responsável por deflagrar o pseudo impedimento que uma gravidez não planejada pode ser para a mudança tão desejada quanto temida. Nesse caso, o “louco” é aquele com o dedo em riste, apontando ao casal seus medos, suas fraquezas, que seus fantasmas não passam de uma sombra de si mesmos. Vai além, mostrando também a frustração e a raiva contidas que cada um carrega ao projeta-las no parceiro, num jogo vicioso de culpar o outro por sua própria infelicidade. Isso fica claro já numa das primeiras cenas do filme, quando o casal está voltando de carro pra casa após uma estréia teatral infeliz de April nos palcos. Vê-se claramente uma estratégia comum entre os casais, mas pouco eficaz, em que um tenta fazer o outro se sentir culpado, na expectativa infantil de ter sua própria dor amenizada. John personifica o grande intruso, inconveniente, que ao desfazer os nós que justificam a inércia dos Wheeler, gera mal estar e desconforto.

Esse acontecimento sela uma situação que não tem volta. Coloca o casal em uma encruzilhada: ou se ajusta/aperta mais a máscara de casal perfeito e realizado, classe média, conformado; ou se abre definitivamente para a força vital do coração, que empodera o ser e o impele a buscar corajosamente sua felicidade.

Infelizmente Frank se acovarda, se acomoda, se esconde no papel que lhe é familiar e seguro. Já April parece apenas prorrogar o grande dia. Parece decidida a “preparar o terreno” para a esperada mudança que virá a médio prazo. Digo, parece, porque tenta solucionar o “problema” da gravidez se arriscando num aborto solitário e domiciliar. Infelizmente sua história é interrompida com o agravamento do procedimento abortivo que a leva à morte. Triste fim. Uma jornada interrompida e dolorosa.  Porém, dor maior de todas é aquela de Frank. Uma dor por não tentar, por se conformar, por fingir não perceber o que nunca esteve sanado – a ferida aberta. Uma dor que não vislumbra o seu fim. A dor do QUASE, do chegar perto e recuar. A dor de ser FRACO.

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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15 respostas para Excelente análise do filme Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road)!

  1. A história do filme me tocou muito. Talvez por ter passado anos da minha vida assim. Presa a passado, presa a vida presente, sentindo falta de algo que não sabia ao certo, determinar o que. Até que decidi correr atrás de cada coisa que me impedia caminhar.
    Gostei muito da indicação e vou fazer o possível para assistir.

  2. Laydiane Matos disse:

    Excelente filme. Muito comum à maioria de nós.

  3. Alexandre disse:

    Eu vivo isso com minha esposa, temos 42 anos, não temos filhos, viajamos bastante, gostamos de ler muito. Assim temos uma visão de mundo que foge dos padroes da normalidade. Gostamos de discutir e nos interessamos por outros assuntos alem dos triviais. Resultado disso tudo:inveja. Volià!

  4. Alexandre disse:

    Voilà! Tomando uma surra do Mac! Desculpe também a acentuação.

  5. Pâmela disse:

    Assisti ao filme ontem e até agora estou com nó na garganta, história forte, com muitas questões para se discutir. Adorei sua análise. Obrigada!

  6. Wirlem disse:

    Eu achei fantástico a análise crítica da Vanessa Pádua, nos leva a reflexao em muitos aspectos, porém, talvez naturalmente sendo mulher ela escreveu muito da perspectiva da April. O Frank se acovardou e errou muito de fato mas a April também agiu errado de várias maneiras. O fato de acreditar que a solução estava no outro lado do mundo não é uma fuga? Querer abortar para ter liberdade não é uma fuga? Ela não poderia trabalhar na cidade onde eles moravam? Poderia conseguir trabalho, se mudarem para o centro da cidade, adotar um estilo de vida diferente, o Franck procurar outro emprego ou estudar tb não seria diferente. Acho que o filme também retrata o egoísmo. Uma chaga no relacionamento que nos faz querer sempre que nossas idéias prevaleçam. Não há meio termo ou equilíbrio. A depressão do querer a qualquer custo a minha vontade.
    Eu enxerguei no filme dois covardes… Talvez o Franck em maior grau… Duas pessoas que fizeram escolhas erradas e não foram amantes e amigos o suficiente para corrigir.

  7. adriana disse:

    Assisti ao filme e fiquei pensando por horas. Dificilmente vou esquecer a mensagem que ele me passou. Mas ainda assim para mim ficou a imagem negativa da April. Teimosa, uma pessoa que não soube conversar e ser maleável quando as situações foram adversas. Se de um lado o marido teve conformismo em excesso, do outro lado ela se mostrou muito instável emocionalmente quando viu que seus planos falharam.

  8. Marcia disse:

    Crítica COM SPOILER SEM AVISO???

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