FELICIDADE: Mais um texto sobre esse inesgotável tema!

Happiness3

Volto ao tema FELICIDADE, já abordado aqui no blog em diversas oportunidades. Há, seguramente, muita confusão e distorções no entendimento do que seja felicidade. Com o propósito de contribuir para a redução dessas percepções equivocadas, transcrevo o inteligente texto abaixo, publicado no site http://www.gluckproject.com.br/, em que o autor busca passar a sua visão a respeito do que seria a autêntica felicidade!

“Felicidade, no singular, não existe

Por André Toso

A felicidade se transformou em mercadoria embalada, selada e colocada à venda em gôndolas de supermercados. Antes uma ideia filosófica, uma ânsia utópica, um desejo, a felicidade é hoje um simples produto vendido em livros de autoajuda, prometido em cultos religiosos, celebrado na irrealidade da televisão, prescrito por psiquiatras e atualizado no perfil do Facebook. Felicidade, hoje, é como um plano de operadora de celular ou um novo modelo de carro.

Todos se sentem obrigados a buscar a felicidade. O fato é que a felicidade, no singular, não existe. O que existe são momentos de felicidade, muitas vezes tão fugazes e simples que nem nos damos conta deles. Tenho um bom exemplo pessoal. Quando me mudei para a Vila Mariana – em uma rua tranquila e arborizada – ouvi logo nas primeiras manhãs um galo se esgoelando na minha janela. A surpresa foi enorme: ali, no meio de uma cidade como São Paulo, ainda era possível ouvir um som legítimo da natureza. Só fui perceber o tamanho da minha felicidade meses depois, quando notei que o galo não cantava mais. Algo simples – que me tirou do cotidiano previsível – tornou-se um momento de felicidade marcante.

Sigmund Freud (1856-1939), no fundamental “O Mal-estar na Civilização”, concorda comigo: “aquilo que em seu sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico”. Isso ocorre, segundo ele, pelo fato de que uma situação de prazer nos fornece apenas uma sensação momentânea de bem-estar. Ele completa: “somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado”. Concordo inteiramente: no meu exemplo, o momento de felicidade é um contraste ao previsível. O galo cantar me forneceu prazer ao se opor ao meu cotidiano, vivido em uma cidade que enterrou tudo aquilo que é natural. Ao ouvir o galo, não a buzina, senti-me salvo por alguns momentos da prisão urbana, dos símbolos e significações que me sufocam. Senti-me, por alguns minutos, feliz pelo fato de o surpreendente ter invadido sem licença meu cotidiano.

Superego Bozo
Como diria Jacques Lacan (1901-1981), você não é obrigado a gozar. Em nosso tempo, vivemos com uma espécie de Superego Bozo, que nos obriga a sorrir, ser engraçados e curtir todos os momentos da vida com felicidade e descontração. O Facebook é um dos sintomas disso, pois lá as pessoas editam suas vidas, postam fotos e se mostram insuportavelmente felizes. Percebe-se que elas mesmas estão sufocadas na maré de alegria plastificada que se tornou suas vidas virtuais.

A felicidade não é uma meta, porque ela não é um destino a se chegar. Felicidades são momentos que ocorrem ao longo de toda uma trajetória de vida. Quem corre atrás da felicidade corre atrás de um vulto que não existe e que cada vez parecerá mais longe. Penso que o importante não é ser feliz, e sim sentir-se feliz quando os momentos de alegria acontecem. É capturar aquele instante fugaz, aproveitá-lo e constituir sua história de vida sempre prestando atenção neles.

O psicanalista Jorge Forbes, em uma palestra intitulada “A felicidade na clínica de Jacques Lacan”, afirma que, para o pensador francês, felicidade é a capacidade de sentir magia. Acreditar que é possível criar magia. Por isso, diz ele, as crianças são, em geral, muito mais felizes que os adultos. Quando o galo cantou na minha janela senti exatamente essa magia meio infantil, fundamental para a construção da felicidade, mas sem uma corrida desesperada atrás dela. Lacan afirma: “felicidade vem por acaso”. Como desmenti-lo? O importante é ficar atento, para que ela não passe despercebida. Correr em desespero atrás da felicidade é matar a possibilidade de ser surpreendido por ela. É isso o que se anda fazendo deliberadamente por aí.

Para finalizar, a concepção de felicidade de Donald Woods Winnicott (1896-1971) ajuda a esclarecer um pouco seu sentido. Para o psicanalista inglês, a felicidade está relacionada com sentir-se existindo de forma criativa e não como mero espectador do mundo. Como muito bem analisado no blog do também psicanalista Lucas Nápoli, “o que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott, uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer”. Felicidade é – surpreso – ouvir o galo para depois aguentar as buzinas com a esperança de que, inesperadamente, um novo galo volte a cantar na janela. E esta é só uma das tantas felicidades simples do dia a dia. Pare de correr atrás do vulto e atente-se ao seu redor. A felicidade não é uma mercadoria, mas vem em parcelas. E ela é tão discreta quanto tudo que contém poesia.”

(André Toso é jornalista e psicoterapeuta).

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Sobre JCDattoli

Este blog foi idealizado para compartilhar reflexões e discussões (comentários, frases célebres, textos diversos, slides, vídeos, músicas, referências sobre livros, filmes, sites, outros blogs) que contribuam para a realização e o crescimento do ser humano em toda a sua essência e nas dimensões pessoais e profissionais. Almejo que o ser humano se mostre cada vez mais virtuoso, atento e disposto a servir o próximo em cada momento da sua existência. Atuei profissionalmente por quatro décadas, com bastante intensidade, nas áreas pública e privada. Ocupei de cargos técnicos a postos de chefia e direção. Neste novo momento, pretendo ajudar pessoas a atingir outros patamares na vida – e na profissão. Dedicarei parte do tempo para ações sociais/humanitárias (acabo de retomar o projeto 'música para idosos'), além de assegurar espaços na agenda para reflexões e meditações. Gosto de ler, de praticar atividades físicas e de cantar-tocar violão. A família e as amizades são preciosas matérias-primas na construção do bem viver. Apesar das incongruências, desencontros e descaminhos humanos, tenho por missão dedicar-me mais e mais às pessoas como contributo para um mundo verdadeiramente melhor!
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3 respostas para FELICIDADE: Mais um texto sobre esse inesgotável tema!

  1. A felicidade, essa esperada pela maioria, intensa e permanente, de fato, não existe. O que é real, são momentos felizes. Quanto mais se busca essa plenitude em sua totalidade, menos se consegue ser feliz, exatamente por perder de aproveitar o que se tem. Por outro lado, a felicidade pra cada ser, tem um conteúdo diferente; pra uns é ter dinheiro. Pra outros, basta a simplicidade da natureza, a beleza de uma flor.
    Achei muito legal sua frase final: “A felicidade não é uma mercadoria, mas vem em parcelas. E ela é tão discreta quanto tudo que contém poesia.” Linda e real! Bjs

  2. Marcello Lopes disse:

    Pois é… interessante texto. Realmente esta felicidade que nos é vendida, a mesma a qual Freud talvez tenha se referido, somente conseguimos alcançar em curtos momentos de nossa existência terrena.
    Mas o estado de felicidade existe e cada um de nós, a seu tempo, chegará lá. Infelizmente, a grande maioria de nós ainda mal consegue compreendê-lo, mas todos conhecemos alguma pessoa iluminada que o tenha atingido, como nosso Mestre Jesus, São Francisco de Assis e Chico Xavier.
    Esta Felicidade não é caracterizada pelo sorriso farto e fácil, mas pela serenidade de quem realmente consegue tocar a sua vida sabendo onde está, porque está, para que está e para onde está seguindo.
    Cabe lembrar que esta Felicidade não é causa, é efeito. Portanto, façamos a nossa parte e vivamos seguindo os bons exemplos e deixando bons exemplos, que, quando menos esperarmos, nosso progresso moral a trará até nós.
    Um abraço.

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